18 de janeiro de 2010

ASSURBANÍPAL MAGIC CLUB


SERÁ O PROXIMO ESPETÁCULO DO MANUFACTURA, COM TEXTO DO MAURICIO, VÍRGULAS, PONTOS E PONTOS-E-VÍRGULAS DE CAMUS,A. LIMA, FILOSOFOS GREGOS E VIDA VERDADEIRA... (Ilustração de Giampaolo Köhler)

9 de dezembro de 2009

Mário Bortolotto foi vítima de um tiro parado no ar

Baleado dentro do Espaço Parlapatões, na praça Roosevelt, no último sábado, dramaturgo passou de testemunha de seu tempo a vítima da realidade factual

Artigo de Mauricio Paroni para a Folha de São Paulo

O diretor Fernando Peixoto descreve a estrutura de "Um Grito Parado no Ar", de Gianfrancesco Guarnieri, no teatro Aliança Francesa, em 1973: "Um diretor e cinco atores procuram realizar um trabalho, enfrentando toda sorte de pressões externas; [...] noutro plano estão os poucos momentos em que o diretor e atores conseguem vencer; o espectador assiste ao processo de criação do ator. A mística do teatro é desnudada. [...] No terceiro plano estão as entrevistas com o povo, todas autênticas, gravadas nas ruas de São Paulo. Na peça dentro da peça seriam entrevistas realizadas para servirem de material de estudo para a criação de suas personagens".
Trinta e oito (38!) anos depois, na mesma cidade onde a população (rica e pobre) passou a ter a mesma vida dos ratos, dentro de carros com insulfilm, de escritórios, nas fábricas, escrava de apartamentos cuidados por uma imensa população de escravos chamados de empregados, há uma praça onde passa a vigorar uma estranha proibição de ir e vir.
São os próprios moradores -que substituíram os travestis e prostitutas de um tempo- a chamar as autoridades, obrigadas a cumprir a lei -não importa se a lei vale ali e para os 99% dos lugares periféricos onde há tiroteios e chacinas.

Um dramaturgo que tem um blog chamado "Atire no Dramaturgo", dentro de um dos teatros da praça, reage a um assalto promovido por ladrões drogados e certos da impunidade. É baleado, espera-se não mortalmente. Não é Camus, não é Kafka, não é Buñuel, não é mais Guarnieri. O próprio dramaturgo não pode contar a condição absurda dessas circunstâncias. Porque de testemunha de seu tempo virou vítima da realidade factual. Esse é o drama: nenhum de nós consegue contar a tragédia, porque não há público que possa entender tal lógica. Quem é o promotor dela?Quem financia aquela bala?

Escola

Na praça emblemática do drama com uma bala parada no ar, vai se instalar uma escola de teatro onde se ensinará o grito. Não é uma escola qualquer; é dirigida aos que não podem estudar, aos únicos que entendem a lógica de contar histórias nas quais vivem. Gente que está fadada a viver como aquele assaltante que "atirou no dramaturgo". Mas se revolta, indignada, a classe imbecil que ideologiza a nossa cidade, os "libertários" que inventam e habitam apartamentos de muitos cômodos, banheiros e três garagens em 60 m2. Aquela gentalha aparentemente decente tão bem criticada nos filmes e escritos do cineasta Pasolini. Exigem mais escolas perto deles. Escolas inacessíveis a quem precisa de uma linguagem para poder se contar.

Italiano brasileiríssimo, o autor de "Um Grito Parado no Ar", Gianfrancesco Guarnieri, declarou que "ter de modificar a própria maneira de falar pode ser bom, no sentido em que a modificação traz a conquista de novos instrumentos".

Gianfrancesco vinha de um país que, acabado o fascismo, resolveu o problema de forma direta: escolas boas para todos, indiscriminadamente. Em duas gerações, acabou a violência. Mas aqui fingimos pensar o grande, o social e o econômico. E se continua como antes, na deseducação e no falso sonho de liberdade.

Esse tiro parado no ar de que o nosso Bortolotto infelizmente é protagonista precisa ser extraído de nossas cidades. Se tivermos, como classe, assumido a responsabilidade de artistas, indo além dos interesses ideológicos, vamos dar condições "gramáticas" de resposta a quem não tem. Isso quer dizer fazer estudar quem realmente pode puxar um gatilho.

Resposta

Se quisermos dar uma resposta civilizada e de classe a esse absurdo, esta só poderá ser histórica e de longo prazo; formar mais artistas e dramaturgos -os próprios protagonistas daquela triste madrugada, os que ensinarão, os que estudarão na praça- para contar o que não se consegue contar agora.

Não se trata do lugar-comum "a vida imita a arte", porque isso é material de literatura, de teatro, de música e de arte.Há meses venho dizendo que ali se trava uma batalha social, política e humana. Há vozes de heroísmo e de demagogia. Quem banca tal espetáculo, tal escola, e por aí vai, como fofocas numa luta de miseráveis. Isso tem de mudar. Somente reflexão, inteligência e disciplina poderão salvar tudo. E quando escrevo "tudo" escrevo "centro". Neste momento somos símbolo e centro de um drama que pode modificar o seu final.

A nós agora cabe decifrar como contar e com qual gramática podemos lutar para que as coisas melhorem. E isso é possível. Por enquanto, envio força vital ao Bortolotto.



6 de outubro de 2009

Mauricio Paroni, nos tempos de escola, dirigido por Heiner Muller

Vídeo com Mauricio Paroni sendo dirigido por Heiner Muller na Scuola Paolo Grassi.
Algo histórico > aqui.

Beijos e abraços a todos

1 de outubro de 2009

Re-estreia do Auto da Defunta Nua

Oi pessoal, boa noite
O Atelier estará re-estreando a peça sucesso de público "O Auto Da Defunta Nua", com Janine Correa e participação em vídeo de Sérgio Sant'Anna.
Baseada na peça de Pirandello "Vestir os Nus".
O horario da peça é 23:59, sextas e sábados no teatro dos Satyros I.
Esperamos vocês lá 1
Beijos e abraços !

Ah ! É curta temporada

30 de setembro de 2009

11 de setembro de 2009

Só para dar vontade

Oi pessoal, segue um link de vídeo feito pelo Renato Rosatti, com trechos do "Com quem fica o coração" em cartaz no Satyros I.

Saboreiem !

beijos e abraços

http://www.youtube.com/watch?v=TRsaTvE3r04

21 de agosto de 2009

“Com Quem Fica o Coração?”




“Com Quem Fica o Coração?”

Com quem fica o coração?
Um espetáculo de Grand Guignol com um prólogo de necromagia ministrado pelo doutor Tezla Memnon
Com Carlos Meceni, Janine Corrêa e Josué Torres
Participação especial de Leonardo Silvério (necromagia), Leandra Demarchi (vídeo)
Composição cênica e dramaturgia do Atelier de Manufactura Suspeita, coordenadas por Mauricio Paroni de Castro e Elisa Band
Vídeo de Renato Rosati, livremente inspirado em Heiner Muller traduzido por Marcos Renaux
Figurinos de Adriana Ramos
Assistente de direção Leandra Demarchi
Produção Atelier do Manufactura Suspeita.
Apoio Os Satyros
Agradecimentos
Sylvia Soares, Beto Brant, Célio Amino, Claudia Marques, Hilton de Souza Ribeiro, José Carlos de Campos Sobrinho (Zeca), Laura Trevisan, Luís Francisco de Carvalho Filho, Otávio Azevedo, Sandro Vianello, Teatro Promíscuo, Ziza Brisola
Serviço:
ESPAÇO DOS SATYROS 1
Praça Roosevelt, 214
Telefone 3258 6345
Sextas e Sábados às 23:59 - de 14 de Agosto a 26 de Setembro
Preços r$ 10e r$20
Duração: 60 minutos

9 de agosto de 2009

balada na sexta

A balada da sapataria



Música de Slatko Makta

Letra de Shirley Banda e Breno De Paronis



Eu era uma uma demonia,

eu queria ser santa,

eu trabalhava com doação de órgãos ,

eu tocava orgão na igreja,

eu era assistente do pastor.



Eu trabalhava como acompanhante,

eu cortava, eu montava e fazia fuxico,

eu fazia massagem,

eu dava emprego pra médico-legista,

dava pra maquiador funerário,

dava pra proctologista,

dava pra policial fardado,

dava pra tarado à paisana.



Eu era caixa da sapataria.

Eu dava pro moçio do estoque.



Eu dava pra dona da loja



Pra corregedoria da polícia, eu virei perícia.

Pra vocês, hoje, eu sou atriz, por hobby.

Só por hoje.

30 de julho de 2009

COM QUEM FICA O CORAÇÃO? necromagia




“Com Quem Fica o Coração?”
reaproxima o Atelier Manufactura Suspeita do gênero Grand Guignol. A trama narra as vicissitudes de um casal de fundamentalistas em que a mulher, homossexual latente e reprimida, surpreendida em adultério, é assassinada pelo marido. Este pretende vender os seus órgãos para doar o dinheiro auferido à seita a que pertencem. Serve-se para isso de um cirurgião ateu e degenerado por anos de prazer assassino associado ao lucro. O final não se conta: suspense é lei nesse gênero.
“Necromagia” é uma canja do próximo espetáculo executada no início da récita pelo Dr. Tezla Memnon (o ilusionista Leonardo Silvério), que ressuscitará a alma de políticos mortos. Necromagia é um filão pervertido do ilusionismo de barraca circense que remonta à tradição do teatro de revista dos anos vinte e apresenta situações bizarramente místicas.

O gênero grand guignol
Guignol era um fantoche criado em Lyon no final do século dezoito. Em pouco tempo, a popularidade alcançada o transformou em sinônimo de teatro de bonecos. Grand Guignol foi o nome escolhido por Max Maurey para batizar o Théatre Sallon de Paris, no ano do fechamento definitivo do Théatre Libre de André Antoine, em 1899. O lugar era a oficina de experimentação de Oscar Métenier, seu colega no Théatre Libre, que defendia a abolição dos limites impostos pelas convenções cênicas, na busca de maior autenticidade da ficção.
Essa era a principal premissa de uma concepção do espaço teatral originada da reorganização hiperrealista das cenas, até hoje difícil de ser conseguida. O atores eram desvinculados da imposição de postar-se “ teatralmente” e agiam como se estivessem totalmente mergulhados na realidade. “Estar em cena” era o mesmo que estar em um quarto, numa sala ou em uma rua. Não mais em uma cenografia que “representava” tais lugares. Paralelamente às inovações estruturadas da recém-inventada direção, os próprios conteúdos das representações progrediam, influenciados pela poética do teatro realista.
As audazes experiências do Théatre Libre de Antoine começaram a ser metabolizadas – ainda que não compreendidas- por um público burguês fascinado com os temas de horror e sexo propostos pelo Guignol. Ali Métenier vai além: explora emoções suscitadas nos expectadores por situações escabrosas de dramas realistas , exageradas ao extremo. Surge a dramaturgia do Grand Guignol como nos chegou até hoje.
Involuntariamente, Métenier havia criado um gênero, que nasceu dentro da poética realista. Situações dramáticas eram levadas a extremas conseqüências, sempre pontuadas por degeneração moral. Depois desta fase inicial passou-se a empregar elementos na insígnia da loucura, de fenômenos espíritas, de experiências paranormais. Eram dramas cruéis e violentos onde se disseminavam depravações, torturas e delitos com predileção pelo horror e pela morbidez. A última fase utilizou temas sádico-eróticos. Com o horror da guerra e do Holocausto, o gênero perdeu boa parte de sua eficácia.
Essa matéria, que se pode resumir como evocação de lendas urbanas em forma de espetáculo, assim como a nossa criação de necromagia revive o clima pré-expressionista do início do século XX. Trabalhamos neste seguindo os ditames de Tadeusz Kantor que nos repetia sempre: “a dimensão da vida está muito próxima da dimensão da arte; ambos confundem-se e compenetram-se, dividem um destino comum. A quarta parede não tem sentido porque a necessidade comunicativa da obra teatral reside nela própria; o espetáculo não acontece para alguém, mas na presença de alguém. Atores não podem fingir um personagem nem representar um texto; devem, eles mesmos agirem com um texto. O drama-vida coincide com a criação do espetáculo-obra de arte.”
Maurício Paroni de Castro

Próxima parada GRAND GUIGNOL



GRAMSCI e o Grand Guignol

Na Itália, o gênero foi introduzido em 1909 por Alfredo Sainati, ator que fundou uma companhia de Grand Guignol que alcançou grande sucesso e foi muito ativa até o seu fim, em 1928.

Numa de suas crônicas teatrais no jornal Avanti, em 1916-20, Antonio Gramsci estigmatizou a deriva decadente do Grand Guignol, e criticava as experimentações de Sainati:

"Por que o publico se diverte no Grand Guignol, se a própria natureza humana foge da dor e do sofrimento? Qual a causa disso ser motivo de atração no teatro? Não podemos falar de fruição artística no que diz respeito à criação de fantasmas poéticos exprimidos plasticamente pelo drama. É evidente que a razão da fortuna desse tipo de teatro deve-se inteiramente aos atores[...]. De tragicidade não há nada, além da máscara exterior e do espasmo físico que se tenta comunicar ao espectador, entorpecido com um tremor irresistível.[...] A matéria bruta, qual betume de noticia marrom, organiza-se na elasticidade da personalidade artística [do ator que a interpreta], que sabe comportar-se no modo mais atroz e mais sanguinariamente sugestivo. Assim, o espectador, que vai ao teatro para acanalhar-se e sentir uma tensão nervosa que lhe dê a impressão da vida fictícia do cortiço, fica satisfeito e aplaude".

3 de junho de 2009

Antonio Gramsci - da prisão do além-túmulo - colabora com Manufactura Suspeita

Não é o Paroni que inventa moda





“Sabe que eu, bem antes de Adriano Tilgher, descobri e contribuí a popularizar o teatro de Pirandello? Escrevi sobre Pirandello, de 1915 a 1920, tanto a ponto de juntar um volumezinho de 200 paginas. As minhas afirmações eram originais e sem exemplos, então: Pirandello era suportado amavelmente ou derriso abertamente.” (Escrito da prisão para a cunhada Tatiana, em 19 de março de 1927)


Antonio Gramsci (1891-1937), grande cientista político comunista e antifascista italiano, foi também critico teatral do “Avanti!” de Turim por quatro anos, de 1916 a 1920. Abaixo, um trecho significativo de uma das criticas sobre Pirandello - exatamente como o Manufactura trabalha seus textos:

[...] a personalidade artística de Pirandello é multifacetada e complexa. Quando Pirandello escreve um drama, ele não se exprime “literariamente” com a palavra, [esta] um aspecto [somente] parcial de sua personalidade artística. Ele “deve” integrar a escrita literária com a sua obra de capocomico e diretor. O drama de Pirandello atinge toda a sua expressividade somente quando a “atuação” será dirigida pelo Pirandello capocomico, ou seja, na medida em que Pirandello terá suscitado nos atores uma determinada expressão teatral e na medida em que o Pirandello diretor terá criado uma determinada relação estética entre o complexo humano que atuará e o aparato material do palco (luzes, cores, direção em sentido amplo). Ou seja, o teatro pirandelliano está estritamente ligado à personalidade física do escritor e não somente aos valores artístico-literários “escritos”. Uma vez morto Pirandello (quer dizer, se além do escritor, não mais opera o capocomico ou o diretor), o que sobra do teatro de Pirandello? “um canovaccio genérico” que, em certo sentido, pode lembrar o fundo de cena do teatro pré-goldoniano, dos “pretextos” teatrais, não da “poesia” eterna. Dir-se-ia que isso ocorre em todas as obras para teatro, o que, em certo sentid,o é verdade. Mas somente em certo sentido. È verdade que uma tragédia de Shakespeare pode ter diversas interpretações teatrais segundo os capocomicos e os diretores; quer dizer, é verdade que cada tragédia pode virar “pretexto” para espetáculos teatrais diferentes entre si. Mas resta que a tragédia “impressa” no papel e lida individualmente tem uma vida artística independente, que pode se abster da representação teatral: é poesia e arte também fora do teatro e do espetáculo. Isso não acontece com Pirandello: o seu teatro vive esteticamente em sua maior substância somente se “representado” teatralmente tendo Pirandello como capocomico ou diretor. (tudo isso seja entendido com muito cuidado).
Antonio Gramsci – Cadernos do Cárcere – Literatura e Vida Nacional – Ed Riunti, Roma - tradução Mauricio Paroni de Castro

31 de maio de 2009

ARTIGO NO CRONOPIOS



Sobre cultura, civilização e leis de incentivo.

http://www.cronopios.com.br/site/colunistas.asp?id=4010#texto



Ruínas de uma arquitetura teatral em São Paulo


Por Maurício Paroni de Castro


Este é um artigo que já publicado na Folha Ilustrada em 2002, pouco antes da posse deste governo. Como se trata (ainda!) de uma discussão atual, proponho a sua republicação no Cronópios, gentilmente autorizada pelo editor da Folha.




São Paulo cresce e deixa escombros por onde passa. Nossa política cultural faz o mesmo. As principais leis de incentivo que alimentam todos os níveis da ação produtiva (governo, produtores, artistas) deixam ruínas sem valor histórico. Não discuto aqui outras áreas culturais ou cidades que não conheço. Muita coisa parece ter dado certo no cinema, por exemplo. Aos responsáveis pelo nosso Governo, gostaria de apontar três escombros que asfixiam o nosso teatro. Pode ser útil aos leitores italianos, visto que copiamos reciprocamente os nossos defeitos como nenhuma outra nação foi capaz na História.



O entretenimento veiculava e professava a liberdade, o sonho, a utopia
1. Nas cidades onde, em dado momento histórico, ocorreu a mágica cumplicidade entre multiplicidade e utopia civilizatória, a população se integrava com o teatro ao estar próxima dos locais de espetáculo e ao zelar por sua integridade arquitetônica. Era coisa de todos.
O Globe Theatre e outros teatros da Londres elisabetana existiram enquanto neles havia atividade teatral com significado concreto. Ali, o entretenimento veiculava e professava a liberdade, o sonho, a utopia. O período obscurantista de Cromwell, do fanatismo puritano e da peste se encarregou de destruir aqueles edifícios e tudo o que representavam.
Isso não está tão longe do Brasil como parece. O uso dos espaços citadinos do Teatro possui esse significado concreto mencionado acima. Essa riqueza precisa de um endereço, de um referencial público para o que foi construído artisticamente.
Em nossos dias, Paris deu um grande exemplo a propósito. Incentivou a divisão pública do tesouro teatral resultante das peregrinações de Peter Brook, atraindo-o para o Théatre des Bouffes du Nord, um edifício decrépito e periférico. A inteligência do gestor cultural chegou antes do dinheiro, que veio depois. O seu talento foi multiplicado mais do que quando dirigia na Royal Shakespeare Company, o mais rico teatro inglês.
Não vejo porque devemos ficar atrás de Paris. Há muito talento nos artistas de teatro brasileiros. E um talento heróico, subnutrido pelo depauperamento intelectual, pela perfumaria tecnológica e pela gestão antidemocrática dos espaços teatrais.
Os teatros que significaram alguma coisa para nós foram quase todos destruídos; aqueles que sobraram foram restaurados e são como limbos dantescos, separados como estão da população. Os que ainda continuam vivos o fazem somente graças à determinação esquiliana de seus integrantes.
Na música, há a Sala São Paulo e o Teatro São Pedro. No teatro, há o quê? Há a tentativa inteligente da Prefeitura de reconstituir socialmente a zona central da cidade. Chega a ceder alguns espaços a grupos de teatro. Entretanto qual conteúdo veicular ali, se os artistas brasileiros são forçados a serem heróis, em vez de criarem heróis? Morre a profissão e sobrevive o sacerdócio.



Sem artesanato não há teatro
2. Serei um louco furioso, mas acredito nisto: o teatro sempre reciclou a ignorância. Dela se nutriu e com ela ficou forte. No Globe, a maioria do público era analfabeta. Analfabetos concretizam melhor e mais rápido as palavras de seus interlocutores. Por isso Shakespeare não abaixava o nível daquilo que fazia. Na commedia dell`arte, os atores eram também literatos cultíssimos. Estudavam Platão para concertar trechos de amor e de ódio.
Ao assistir a aparições de demônios, o público sentia medo real da idéia do demônio, não do demônio. A diferença é sutil, mas fundamental, é a mesma entre um teatro e um templo de fanáticos. A comunicação de idéias se dava graças ao domínio artesanal dos atores, que se servia da ignorância, mas não a propagava.
Sem artesanato não há teatro; artesanato se aprende nas escolas; as escolas de teatro no Brasil são caríssimas, frequentadas e mantidas por uma classe média obtusa. Professores e uma minoria mais articulada são atropelados por um sistema perverso que ensina a lógica da mendicância. Termina-se, então, por cultuar, construir e difundir uma estética de mau gosto e baixo nível, fundeada no preconceito.



Temos passado longe, muito longe, da civilização
3. Aproveito uma reflexão de Jouvet. Um dia, o ser humano percebeu dentro de si uma força secreta, íntima e imaterial. Ela tinha o poder de subjugar racionalmente as ações de seu corpo. A tal mistério deu o nome de "alma". Era igual a ele próprio: desejava, esperava, sonhava, exigia existir para o outro. Projetou-a nos objetos, nos animais e, enfim, no outro.
O passo seguinte foi se mimetizar com o objeto, vestir-se com a pele dos animais, mascarar-se com a face do outro. Esse universo, real e irreal ao mesmo tempo, materializou as agitações de sua "alma". Muitos gostavam de assistir ao fenômeno. Era útil.
Assim começou o teatro entre gregos, índios, negros, arianos. Admitindo ou não, somos seus herdeiros. Esse atestado de civilização, mesmo separado da religião, é sagrado e público.
Temos passado longe, muito longe, da civilização. Promovem-se "curtos-circuitos de modernidade". Financiam-se espetáculos caríssimos por meio de leis de renúncia fiscal em que o grande beneficiário é o marketing de empresas. Rotula-se tudo isso de teatro enquanto indústria cultural. Esta, se fosse cultural mesmo, estaria falida sem mesmo ter começado a existir.
A renúncia fiscal não é nociva em si. É um dos meios para se empregar dinheiro público no teatro. Mas seria preciso ter a honestidade de admitir que esse dinheiro é público. O governo presta contabilidade, mas não pode prestar contas de para onde vão tais recursos, simplesmente porque ele se omite da decisão real. Quem decide são departamentos de marketing de empresas; elas escolhem qual artista ou atividade irão patrocinar. As empresas não têm culpa. A lei o permite e incentiva.
Na prática, as companhias teatrais com idéias concretas têm vida curta. A maioria nem nasce. Isso não é planejamento cultural, é fugir da responsabilidade da gestão política. Entre privatizar e pulverizar o senso de Estado, há grande diferença.
A ditadura minou o teatro com a censura. O modelo cultural que se seguiu até aqui tratou essa instituição antiga (que necessita de preservação, renovação e vida citadina) como uma coisa velha, maquiando-a apenas.
O peso desses escombros asfixia silenciosamente o teatro brasileiro. Fortalece-se a selvajaria em que já vivemos. Nesse ritmo, será normal topar com cambistas oferecendo ingressos para ver assassinatos ao vivo nas esquinas alugadas para limpadores de pára-brisas, um dos tristes espetáculos de São Paulo. Por tédio.

11 de maio de 2009

O público define este espetáculo misterioso



“Logo no início, diretor, autor e personagem entram em debate num triângulo de incompreensões e de briga por causa dos próprios papéis. Foi inusitado o modo como se iniciaram as cenas em razão do estranhamento que causa ver a noiva `reclamando` da sua condição, numa mistura de realidade de bastidor com encenação propriamente dita. E é o que, mais ou menos, faz Sérgio Sant´Anna em Um Crime Delicado, discutindo o triângulo autor, narrador e personagem.”
- comentário de Rafael Batini depois de assistir ao Auto da Defunta Nua

27 de abril de 2009

impressão do público


Auto da Defunta Nua
17/04/2009
Por Priscila Armani




http://www.opperaa.com/nota.php?idnoticias=764&categoria=cenicas



Auto da Defunta Nua

Aviso aos desatentos: o Auto da Defunta Nua exige estômago. Não digo isso no mal sentido não. Digamos que um certo apetite luxurioso é necessário.

Isso graças a duas personagens principais. A primeira é Janine Corrêa. No palco do Espaço dos Satyros Um, ela é uma estrela em meio à escuridão.

É a defunta do título da peça. Mas não poderia estar mais viva. Sua atuação é visceral, provocativa. Impossível ficar indiferente ao seu strip tease. Sexy, triste, degradante.

O outro personagem, na verdade, é autor. Mas também se faz espetáculo. Onipresente, Sérgio Sant´Anna está com Janine quando ela dá vida ao seu "Rascunho para um bilhete de suicida" e também a acompanha na morte, em vídeo, quando declama ele mesmo a "Oração a uma jovem defunta nua".

Merece destaque a iluminação especialmente pensada para criar o clima certo. O palco é escuro, a única iluminação provém do projetor e das luzes no caixão e na beira do palco, que lembram os ambientes de velório, parcialmente iluminados por vela.

Detalhe engraçado e indispensável: durante o velório, acontece a degustação de uma massa italiana. O público interage e, literalmente, testa seu apetite.

12 de abril de 2009

AUTO DA DEFUNTA NUA






No AUTO DA DEFUNTA NUA, SÉRGIO SANT´ANNA contracena, em vídeo, com a atriz Janine Corrêa (“Melhor Atriz” - Festival de Gramado e “Menção Honrosa” - Festival de Brasília).

Textos de Pirandello e Sérgio Sant'Anna
Dramaturgia, Composição Cênica e Direção: Maurício Paroni de Castro
con Janine Corrêa e Bruno Kott
Participação especial de Sérgio Sant'Anna, Téo Barossi e Esperança Motta
Fotos de Bruno Zorzal
Música de André Sant´Anna , Bach, Helô Ribeiro, Pachelbel e Vanessa Bumagny

Uma personagem provoca o seu próprio criador ao fazer um strip tease, momentos antes de seu suicídio. O autor vela e louva a sensualidade do cadáver. Ele continua a trama até pressentir-se o vilipêndio iminente, mas a atriz encontra um modo de libertar-se de sua obra e do assédio que isso representa.

De 17 de Abril até 30 de Maio
Sextas-feiras e Sábados às 23:59

Duração: 55 minutos
Não recomendável para menores de 18 anos



Espaço dos Satyros I
Praça Roosevelt, 214, Telefone: 3258 6345
Ingressos: R$20 e R$10

Durante o velório, haverá degustação de uma receita italiana mediante o pagamento de R$15.





http://www.cronopios.com.br/site/colunistas.asp?id=3791#texto

http://www.youtube.com/watch?v=jp9mr-EEKxQ

http://www.youtube.com/watch?v=6ntPUHcOfws

Vídeos: Renato Rosati

SÉRGIO SANT’ANNA é carioca, nascido em 1941, iniciou sua carreira de escritor em 1969, com os contos de “O Sobrevivente”, livro que o levou a participar do International Writing Program da Universidade de Iowa, nos EUA.

Recebeu o prêmio Jabuti por quatro vezes, com “O Concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro” (1982), “Amazona” (1986), o último por “O vôo da madrugada”, que ganhou o APCA de contos e o segundo lugar no Prêmio Portugal Telecom 2004. Suas publicações incluem ainda “Notas de Manfredo Rangel, Repórter” (1973), “Confissões de Ralfo” (1975), “Simulacros” (1977) e “A Tragédia Brasileira” (1987).

Pela Companhia das Letras, editou “A Senhorita Simpson” (1989), “Breve História do Espírito” (1991), “O Monstro” (1994), “Contos e Novelas Reunidos” (1997), “O vôo da madrugada” (2003), entre outros. Em 2005 a Companhia das Letras relançou seu livro preferido “A Tragédia Brasileira” e estreou em festivais a adaptação de seu “Um Crime Delicado”, dirigido por Beto Brant.

2 de abril de 2009

O MANUFACTURA ADERE AO MOVIMENTO 27 DE MARÇO



O ATELIER ADERE AO MOVIMENTO 27 DE MARÇO.
PUBLICAREMOS NESTE BLOG TODAS AS COMUNICAÇÕES SOBRE OS ENCONTROS E DEMAIS MANIFESTAÇÕES. ENTENDEMOS ESTA A MELHOR FORMA DE LUTAR POR UMA POLITICA CULTURAL MAIS DECENTE PARA O NOSSO PAÍS.

Na próxima quarta-feira, dia 01/04, às 20h, na sede da Cia. Antropofágica - Espaço Pyndorama - Rua Turiaçu, 481 – Perdizes - Telefone 11 3871-0373 ocorrerá mais um encontro do Movimento 27 de março.

Na próxima quinta-feira, dia 02/04, às 14h, na FUNARTE (Alameda Nothmann, 1.058 - Campos Elíseos), ocorrerá o 1º encontro para um diálogo aberto e transparente do Movimento 27 de março com representantes do Ministério da Cultura.

Assessoria de Imprensa :
Osvaldo Pinheiro - 8121-0870
Rafael Ferro – 8183-6887
asessoria.movimento27demarco@gmail.com
Affonso Lobo - 9748-1629





CARTA ABERTA AO MINISTÉRIO DA CULTURA



Hoje, no Dia Mundial do Teatro, nós, trabalhadores de grupos teatrais de São Paulo organizados no Movimento 27 de Março, somos obrigados a ocupar as dependências da Funarte na cidade. A atitude extrema é provocada pelo falso diálogo proposto pelo governo federal, que teima em nos usar num debate de mão única. Cobramos, ao contrário, o diálogo honesto e democrático que nos tem sido negado.



O governo impõe um único programa: a transferência de recursos públicos para o marketing privado, o que não contempla a cultura mas grandes empresas que não fazem cultura. E se recusa, sistematicamente, a discutir qualquer outra alternativa.



Trocando em miúdos.



O Profic – Programa de Fomento e Incentivo à Cultura, que Vv. Ss. apresentam para discussão como substituto ao Pronac, que já existe, sustenta-se sobre a mesma coisa: Fundo Nacional de Cultura – FNC, patrocínios privados com dinheiro público (o tal incentivo/renúncia fiscal que todos conhecem como Lei Rouanet) e Ficart – Fundo de Investimento Cultural e Artístico.



Ora, o Fundo não é um programa, é um instrumento contábil para a ação dos governos. Já o Ficart (um fundo de aplicação financeira) e o incentivo fiscal destinam-se ao mercado, não à cultura. O escândalo maior está na manutenção da renúncia/incentivo fiscal, a chamada Lei Rouanet, que o governo, empresas e mídia teimam em defender e manter.



O que é a renúncia ou incentivo fiscal? É Imposto de Renda, dinheiro público que o governo entrega aos gerentes de marketing das grandes empresas. Destina-se ao marketing das mesmas e não à cultura. É o discurso que atrela a cultura ao mercado que permite esse desvio absurdo: o dinheiro público vai para o negócio privado que não produz cultura e o governo transfere suas funções para o gerente da grande corporação. Diminuir a porcentagem dessa transferência ou criar normas pretensamente moralizadoras não muda a natureza do roubo e da omissão do governante no exercício de suas obrigações constitucionais. Não se trata de maquiar a Lei Rouanet (incentivo fiscal); trata-se de acabar com ela em nome da cultura, do direito e do interesse público, garantindo-se que o mesmo dinheiro seja aplicado diretamente na cultura de forma pública e democrática..



Assim, dentro do Profic, apenas a renúncia fiscal pode se apresentar como programa, um programa de transferência de recursos públicos para o marketing privado, em nome do incentivo ao mercado. Trata-se, portanto, de um programa único que não vê e não permite outra saída, daí ser totalitário, autoritário, anti-democrático na sua essência.



E é o mesmo e velho programa que teima em mercantilizar, em transformar em mercadoria todas as atividades humanas, inclusive a cultura, a saúde e a educação, por exemplo. Não é por acaso que os mesmos gestores do capital ocupam os lugares chaves na máquina estatal da União, dos Estados e Municípios, coisas que conhecemos bem de perto em nosso Estado e capital, seus pretensos opositores.



E esse discurso único não se impõe apenas à política cultural. É ele que confunde uma política para a agrícultura com dinheiro para o agronegócio; que centra a política urbana na construção habitacional a cargo das grandes construtoras; e outra coisa não fazem os gestores do Banco Central que não seja garantir o lucro dos bancos. Não há saída, não há outra alternativa, os senhores continuam dizendo, mesmo com o mercado falido, com a crise do capital obrigando-os a raspar o Tesouro Público no mundo todo para salvar a tal competência mercantil.



Pois bem, senhores, apesar do mercado, nós existimos. Somos nós que fazemos teatro, mas estamos condenados: não queremos e não podemos fabricar lucros. Não é essa a nossa função, não é esse o papel do teatro ou da cultura. Nós produzimos linguagens, alimentamos o imaginário e sonhos do que muitos chamam de povo ou nação; nós trabalhamos com o humano e a construção da humanidade. E isso não cabe em seu estreito mundo mercantil, em sua Lei Rouanet e seu programa único.



Nós somos a prova de que outro conceito de produtividade existe. Os senhores continuarão a tratar o Estado e a coisa pública apenas como assuntos privados e mercantis? Continuarão a negar nosso trabalho e existência? Continuarão a negar a arte ou a cultura que não se resumem a produtos de consumo?



Por isso, além do FNC, exigimos uma política pública para a cultura que contemple vários programas (e não um único discurso mercantil), com recursos orçamentários e regras democráticas, estabelecidos em lei como política de Estado para que todos os governos cumpram seu papel de Poder Executivo.



É esse diálogo que os Senhores se negam, sistematicamente, a fazer enquanto se dizem abertos ao debate. Debate do quê? Do incentivo fiscal. Mas nos recusamos a compartilhar qualquer discussão para maquiar a fraude chamada Lei Rouanet.



Queremos discutir o Fundo. Mas queremos, também, discutir outros programas e oferecemos, novamente, o projeto de criação do Prêmio Teatro Brasileiro como um ponto de partida. Os Senhores estão abertos a este diálogo?



Movimento 27 de Março

São Paulo, Dia Mundial do Teatro e do Circo