A companhia suspeitamente feliz, depois de mais uma réplica ASSURBANÍPAL MAGICLUB. Fazemos excelente teatro, e sempre terminaomos de trabalhar felizes - como se vê na foto. O atelier suspeito faz isso toda Segunda, é motivo de alegria para nós e nosso público oba. Construímos, aos pocos, um repertório; boas surpresas se avistam no horizonte futuro, sempre na nossa casa, que é o Satyros 1, graças ao apoio verdadeiro do Ivam e do Rodolfo.
30 de outubro de 2010
FELIZES, DEPOIS DE FAZER MAIS UMA RÉPLICA DE ASSURBANÍPAL MAGICLUB
A companhia suspeitamente feliz, depois de mais uma réplica ASSURBANÍPAL MAGICLUB. Fazemos excelente teatro, e sempre terminaomos de trabalhar felizes - como se vê na foto. O atelier suspeito faz isso toda Segunda, é motivo de alegria para nós e nosso público oba. Construímos, aos pocos, um repertório; boas surpresas se avistam no horizonte futuro, sempre na nossa casa, que é o Satyros 1, graças ao apoio verdadeiro do Ivam e do Rodolfo.
31 de agosto de 2010
Ótima avaliação para um ótimo trabalho. Venham conferir.
CRÍTICA
"Com Quem Fica o Coração" configura criação antológica
Entre a comédia e a miséria humana, peça reflete maturidade de
Paroni de Castro
LUIZ FERNANDO RAMOS
CRÍTICO DA FOLHA
O teatro de feira como grande arte. "Com Quem Fica o Coração",
do Atelier de Manufactura Suspeita, tem a despretensão de
divertir com recursos do Grand Guignol, mas realiza um
inventivo diálogo com a cena contemporânea, pondo em tensão os
limites entre o real e a ilusão.
O Grand Guignol é um gênero popular na França, que nasce no
fim do século 19 em um pequeno teatro de Paris, como
radicalização do drama naturalista, ousando trazer ao palco as
figuras e o linguajar de prostitutas e de criminosos vulgares.
Ao longo do século 20, e até a década de 1960, aquele espaço
foi se tornando cada vez mais uma casa de horrores, aonde se
ia para ver sangue e cabeças rolarem.
A encenação criada por Maurício Paroni de Castro parte dessas
referências para extrapolar muito além dos efeitos especiais
verossimilhantes, característicos daquela tradição e herdados
e banalizados pelo cinema de terror hollywoodiano.
Prefere fabular, em registro aparentemente cômico, o grotesco
de uma sanguinária dissecação de cadáver.
Como parte essencial da proposta, destaca-se a precariedade
cênica e o tom casual dos atores. Ele se manifesta
principalmente no trabalho de Carlos Meceni, gloriosamente
retornando à cena com interpretação virtuosa.
Como o cirurgião corrupto que comercia órgãos, ele sustenta
toda a ação dramática com fala mansa e a sugestão incisiva de
uma contínua manipulação, invisível ao público, por meio de
bisturis e algodões sangrentos.
Ao seu lado, o assistente, com perturbações mentais típicas
dos personagens do Grand Guignol acometidos pela loucura.
Josué Torres compõe com precisão o moço influenciado por um
pastor evangélico e dividido entre as autópsias e a religião.
Terceiro elemento da trama, Janine Corrêa cumpre a difícil
tarefa de encarnar a alma da mulher morta que está sendo
dissecada. Ela está jogada na cena, de pé ao lado da mesa onde
seus ossos estão sendo serrados. Nessa situação pouco
confortável, a atriz se sustenta no implausível, desempenhando
convicta uma crente devassa.
Criação coletiva, tributária grandemente dos atores e de sua
capacidade de construir uma ficção potente com um mínimo de
recursos, o trabalho reflete também a maturidade de Paroni de
Castro como dramaturgo e encenador. Operando numa linha tênue
entre a comédia e a miséria humana, o Atelier de Manufactura
Suspeita concretiza uma criação antológica.
COM QUEM FICA O CORAÇÃO
QUANDO qui., às 21h30
ONDE teatro Ruth Escobar (r. dos Ingleses, 209, tel. 0/xx/11/
3289-2358)
QUANTO R$ 30
CLASSIFICAÇÃO não informada
AVALIAÇÃO ótimo
"Com Quem Fica o Coração" configura criação antológica
Entre a comédia e a miséria humana, peça reflete maturidade de
Paroni de Castro
LUIZ FERNANDO RAMOS
CRÍTICO DA FOLHA
O teatro de feira como grande arte. "Com Quem Fica o Coração",
do Atelier de Manufactura Suspeita, tem a despretensão de
divertir com recursos do Grand Guignol, mas realiza um
inventivo diálogo com a cena contemporânea, pondo em tensão os
limites entre o real e a ilusão.
O Grand Guignol é um gênero popular na França, que nasce no
fim do século 19 em um pequeno teatro de Paris, como
radicalização do drama naturalista, ousando trazer ao palco as
figuras e o linguajar de prostitutas e de criminosos vulgares.
Ao longo do século 20, e até a década de 1960, aquele espaço
foi se tornando cada vez mais uma casa de horrores, aonde se
ia para ver sangue e cabeças rolarem.
A encenação criada por Maurício Paroni de Castro parte dessas
referências para extrapolar muito além dos efeitos especiais
verossimilhantes, característicos daquela tradição e herdados
e banalizados pelo cinema de terror hollywoodiano.
Prefere fabular, em registro aparentemente cômico, o grotesco
de uma sanguinária dissecação de cadáver.
Como parte essencial da proposta, destaca-se a precariedade
cênica e o tom casual dos atores. Ele se manifesta
principalmente no trabalho de Carlos Meceni, gloriosamente
retornando à cena com interpretação virtuosa.
Como o cirurgião corrupto que comercia órgãos, ele sustenta
toda a ação dramática com fala mansa e a sugestão incisiva de
uma contínua manipulação, invisível ao público, por meio de
bisturis e algodões sangrentos.
Ao seu lado, o assistente, com perturbações mentais típicas
dos personagens do Grand Guignol acometidos pela loucura.
Josué Torres compõe com precisão o moço influenciado por um
pastor evangélico e dividido entre as autópsias e a religião.
Terceiro elemento da trama, Janine Corrêa cumpre a difícil
tarefa de encarnar a alma da mulher morta que está sendo
dissecada. Ela está jogada na cena, de pé ao lado da mesa onde
seus ossos estão sendo serrados. Nessa situação pouco
confortável, a atriz se sustenta no implausível, desempenhando
convicta uma crente devassa.
Criação coletiva, tributária grandemente dos atores e de sua
capacidade de construir uma ficção potente com um mínimo de
recursos, o trabalho reflete também a maturidade de Paroni de
Castro como dramaturgo e encenador. Operando numa linha tênue
entre a comédia e a miséria humana, o Atelier de Manufactura
Suspeita concretiza uma criação antológica.
COM QUEM FICA O CORAÇÃO
QUANDO qui., às 21h30
ONDE teatro Ruth Escobar (r. dos Ingleses, 209, tel. 0/xx/11/
3289-2358)
QUANTO R$ 30
CLASSIFICAÇÃO não informada
AVALIAÇÃO ótimo
22 de agosto de 2010
Opiniao de Marcelo Coelho sobre Com Quem Fica o Coração, em cartaz no Ruth Escobar todas as quintas às 21:30
"Com Quem Fica o Coração"
Assisto à montagem de “Com Quem Fica o Coração”, espetáculo de grand-guignol dirigido por Maurício Paroni de Castro. Declaro meu interesse novamente: trata-se de grande amigo meu, que pôs em cena alguns contos de Voltaire de Souza no espetáculo “Aqui Ninguém é Inocente”, da sua companhia, a Manufactura Suspeita.
Entra-se no teatro Ruth Escobar, e os atores já estão em cena, no que parece ser uma sala de cirurgia clandestina. O médico (Carlos Meceni) realiza uma autópsia, atrás de uma bancada; o cadáver não se vê. A morta, sim: Janine Corrêa está de pé, vestida com a bata branca dos pacientes, e comenta um pouco sua própria condição. O ajudante do médico (Josué Torres) aparecerá mais tarde. Um rádio toca música e pregação evangélica.
Em primeiro lugar, o que chama atenção é a absoluta naturalidade na voz, na dicção de Carlos Meceni. É um operador entediado, falando barbaridades enquanto opera outras no corpo em morte cerebral. Seu cientificismo cínico irá contrastar, assim como seu vocabulário e sotaque, com o credo religioso, a linguagem e a mentalidade para lá de classe C do seu ajudante.
Aos poucos se estabelece, com precisão extrema de detalhes, a diferença social e psicológica entre os dois personagens. Escrever isso é escrever pouco: o ajudante evangélico simplesmente não pensa segundo as mesmas regras do médico; as objeções e comentários que este lhe faz são ignoradas, num fluxo de ideias, convicções e narrativas que funciona sozinho. O ajudante é detalhista em suas memórias do passado: cita marcas e modelos de caminhão, raças de porco e de zebu, atropela-se citando personagens e mais personagens de algum episódio que viveu, sem se dar conta das ironias e das críticas do médico. Este, por sua vez, despreza o interlocutor, aborrece-se, reclama dos próprios problemas, atende a um sinistro celular. Sua familiaridade com a morte e com o mal é levada como um papo de boteco, enquanto a credulidade do antagonista tem o aspecto delirante que não é apenas o de uma religião fundamentalista, mas o de uma mentalidade quase que mutilada pela experiência da pobreza e da deseducação.
Os detalhes chocantes da trama não podem ser contados, mas deve-se registrar a abundância de sangue espirrado e humor negro ao longo da peça. O entrecho, que poderia ser mais esclarecido num ponto ou outro –esta é uma das críticas que sempre endereço a Maurício Paroni—interessa menos, contudo, do que o conflito em cena. De um lado, o racionalismo pragmático do médico, com o qual nos identificamos (até notar o abismo de perversão a que conduz). De outro, a irracionalidade pura do evangélico, que parece mais inocente, e com a qual é impossível identificação imediata, e menos ainda depois de se notar o extremo de brutalidade de que é capaz. Racionalismo e irracionalidade se espelham de modo aterrador no texto –tornando a presença da morta, esta é outra crítica, um pouco sem função durante boa parte do espetáculo.
“Com Quem Fica o Coração” está em cartaz no Ruth Escobar, somente às quintas-feiras, às 21h30.
Escrito por Marcelo Coelho às 01h01
Assisto à montagem de “Com Quem Fica o Coração”, espetáculo de grand-guignol dirigido por Maurício Paroni de Castro. Declaro meu interesse novamente: trata-se de grande amigo meu, que pôs em cena alguns contos de Voltaire de Souza no espetáculo “Aqui Ninguém é Inocente”, da sua companhia, a Manufactura Suspeita.
Entra-se no teatro Ruth Escobar, e os atores já estão em cena, no que parece ser uma sala de cirurgia clandestina. O médico (Carlos Meceni) realiza uma autópsia, atrás de uma bancada; o cadáver não se vê. A morta, sim: Janine Corrêa está de pé, vestida com a bata branca dos pacientes, e comenta um pouco sua própria condição. O ajudante do médico (Josué Torres) aparecerá mais tarde. Um rádio toca música e pregação evangélica.
Em primeiro lugar, o que chama atenção é a absoluta naturalidade na voz, na dicção de Carlos Meceni. É um operador entediado, falando barbaridades enquanto opera outras no corpo em morte cerebral. Seu cientificismo cínico irá contrastar, assim como seu vocabulário e sotaque, com o credo religioso, a linguagem e a mentalidade para lá de classe C do seu ajudante.
Aos poucos se estabelece, com precisão extrema de detalhes, a diferença social e psicológica entre os dois personagens. Escrever isso é escrever pouco: o ajudante evangélico simplesmente não pensa segundo as mesmas regras do médico; as objeções e comentários que este lhe faz são ignoradas, num fluxo de ideias, convicções e narrativas que funciona sozinho. O ajudante é detalhista em suas memórias do passado: cita marcas e modelos de caminhão, raças de porco e de zebu, atropela-se citando personagens e mais personagens de algum episódio que viveu, sem se dar conta das ironias e das críticas do médico. Este, por sua vez, despreza o interlocutor, aborrece-se, reclama dos próprios problemas, atende a um sinistro celular. Sua familiaridade com a morte e com o mal é levada como um papo de boteco, enquanto a credulidade do antagonista tem o aspecto delirante que não é apenas o de uma religião fundamentalista, mas o de uma mentalidade quase que mutilada pela experiência da pobreza e da deseducação.
Os detalhes chocantes da trama não podem ser contados, mas deve-se registrar a abundância de sangue espirrado e humor negro ao longo da peça. O entrecho, que poderia ser mais esclarecido num ponto ou outro –esta é uma das críticas que sempre endereço a Maurício Paroni—interessa menos, contudo, do que o conflito em cena. De um lado, o racionalismo pragmático do médico, com o qual nos identificamos (até notar o abismo de perversão a que conduz). De outro, a irracionalidade pura do evangélico, que parece mais inocente, e com a qual é impossível identificação imediata, e menos ainda depois de se notar o extremo de brutalidade de que é capaz. Racionalismo e irracionalidade se espelham de modo aterrador no texto –tornando a presença da morta, esta é outra crítica, um pouco sem função durante boa parte do espetáculo.
“Com Quem Fica o Coração” está em cartaz no Ruth Escobar, somente às quintas-feiras, às 21h30.
Escrito por Marcelo Coelho às 01h01
11 de agosto de 2010
com quem fica o coração VOLTA NO RUTH ESCOBAR NESTA QUINTA DIA 19 DE AGOSTO
Com quem Fica o Coração
Sucesso há quase um ano, “Com quem fica o coração?”, reaproxima o Atelier Manufactura Suspeita do Grand Guignol, gênero teatral onde os atores se desvinculam da imposição de postar-se “teatralmente” e agem como se estivessem (não estando) totalmente mergulhados na realidade. Situações dramáticas levadas ao extremo das consequências, sempre pontuadas pela degeneração moral dos costumes, com predileção pelo sangue, horror e pela morbidez. Fato e espetáculo tornam-se marca do projeto estético do Atelier de Manufactura Suspeita. Essencialmente filologia cênica da commedia dell´arte, é quase um jazz: há um fraseado decorado e ensaiado para ser empregado somente um terço do repertório dramatúrgico. Isso faz um réplica ligeiramente diferente de outra. O método dramatúrgico de Paroni é empregado desde seus espetáculos italianos até o outro espetáculo atualmente em cartaz, “Assurbanipal Magiclub” e é parte da construção de uma companhia de pesquisa e repertório que dá mostras de grande consistência artesanal.
SINOPSE
Famoso cirurgião mutilado promove tráfico de órgãos humanos. Seu
enfermeiro acabou de matar a esposa homossexual e adúltera; Ao
retirar-lhe os órgãos, o fantasma dela volta para contar a sua versão da
estória.
TEATRO RUTH ESCOBAR
RUA DOS INGLESE, 209 BELA VISTA tel 3289 23 58
Horário: Quintas-feiras. às 21;30
Duração: 60 minutos
Direção: Mauricio Paroni de Castro
Dramaturgia: Mauricio Paroni de Castro e Elisa Band
Vídeo/Projeção: Renato Rosati
Composição do cenário: Mauricio Paroni de Castro
Figurinos: Adriana Ramos
Produção: Sylvia Soares
Realização: Atelier de Manufactura Suspeita.
Sucesso há quase um ano, “Com quem fica o coração?”, reaproxima o Atelier Manufactura Suspeita do Grand Guignol, gênero teatral onde os atores se desvinculam da imposição de postar-se “teatralmente” e agem como se estivessem (não estando) totalmente mergulhados na realidade. Situações dramáticas levadas ao extremo das consequências, sempre pontuadas pela degeneração moral dos costumes, com predileção pelo sangue, horror e pela morbidez. Fato e espetáculo tornam-se marca do projeto estético do Atelier de Manufactura Suspeita. Essencialmente filologia cênica da commedia dell´arte, é quase um jazz: há um fraseado decorado e ensaiado para ser empregado somente um terço do repertório dramatúrgico. Isso faz um réplica ligeiramente diferente de outra. O método dramatúrgico de Paroni é empregado desde seus espetáculos italianos até o outro espetáculo atualmente em cartaz, “Assurbanipal Magiclub” e é parte da construção de uma companhia de pesquisa e repertório que dá mostras de grande consistência artesanal.
SINOPSE
Famoso cirurgião mutilado promove tráfico de órgãos humanos. Seu
enfermeiro acabou de matar a esposa homossexual e adúltera; Ao
retirar-lhe os órgãos, o fantasma dela volta para contar a sua versão da
estória.
TEATRO RUTH ESCOBAR
RUA DOS INGLESE, 209 BELA VISTA tel 3289 23 58
Horário: Quintas-feiras. às 21;30
Duração: 60 minutos
Direção: Mauricio Paroni de Castro
Dramaturgia: Mauricio Paroni de Castro e Elisa Band
Vídeo/Projeção: Renato Rosati
Composição do cenário: Mauricio Paroni de Castro
Figurinos: Adriana Ramos
Produção: Sylvia Soares
Realização: Atelier de Manufactura Suspeita.
1 de fevereiro de 2010
22 de janeiro de 2010
18 de janeiro de 2010
ASSURBANÍPAL MAGIC CLUB

SERÁ O PROXIMO ESPETÁCULO DO MANUFACTURA, COM TEXTO DO MAURICIO, VÍRGULAS, PONTOS E PONTOS-E-VÍRGULAS DE CAMUS,A. LIMA, FILOSOFOS GREGOS E VIDA VERDADEIRA... (Ilustração de Giampaolo Köhler)
9 de dezembro de 2009
Mário Bortolotto foi vítima de um tiro parado no ar
Baleado dentro do Espaço Parlapatões, na praça Roosevelt, no último sábado, dramaturgo passou de testemunha de seu tempo a vítima da realidade factual
Artigo de Mauricio Paroni para a Folha de São Paulo
O diretor Fernando Peixoto descreve a estrutura de "Um Grito Parado no Ar", de Gianfrancesco Guarnieri, no teatro Aliança Francesa, em 1973: "Um diretor e cinco atores procuram realizar um trabalho, enfrentando toda sorte de pressões externas; [...] noutro plano estão os poucos momentos em que o diretor e atores conseguem vencer; o espectador assiste ao processo de criação do ator. A mística do teatro é desnudada. [...] No terceiro plano estão as entrevistas com o povo, todas autênticas, gravadas nas ruas de São Paulo. Na peça dentro da peça seriam entrevistas realizadas para servirem de material de estudo para a criação de suas personagens".
Trinta e oito (38!) anos depois, na mesma cidade onde a população (rica e pobre) passou a ter a mesma vida dos ratos, dentro de carros com insulfilm, de escritórios, nas fábricas, escrava de apartamentos cuidados por uma imensa população de escravos chamados de empregados, há uma praça onde passa a vigorar uma estranha proibição de ir e vir.
São os próprios moradores -que substituíram os travestis e prostitutas de um tempo- a chamar as autoridades, obrigadas a cumprir a lei -não importa se a lei vale ali e para os 99% dos lugares periféricos onde há tiroteios e chacinas.
Um dramaturgo que tem um blog chamado "Atire no Dramaturgo", dentro de um dos teatros da praça, reage a um assalto promovido por ladrões drogados e certos da impunidade. É baleado, espera-se não mortalmente. Não é Camus, não é Kafka, não é Buñuel, não é mais Guarnieri. O próprio dramaturgo não pode contar a condição absurda dessas circunstâncias. Porque de testemunha de seu tempo virou vítima da realidade factual. Esse é o drama: nenhum de nós consegue contar a tragédia, porque não há público que possa entender tal lógica. Quem é o promotor dela?Quem financia aquela bala?
Escola
Na praça emblemática do drama com uma bala parada no ar, vai se instalar uma escola de teatro onde se ensinará o grito. Não é uma escola qualquer; é dirigida aos que não podem estudar, aos únicos que entendem a lógica de contar histórias nas quais vivem. Gente que está fadada a viver como aquele assaltante que "atirou no dramaturgo". Mas se revolta, indignada, a classe imbecil que ideologiza a nossa cidade, os "libertários" que inventam e habitam apartamentos de muitos cômodos, banheiros e três garagens em 60 m2. Aquela gentalha aparentemente decente tão bem criticada nos filmes e escritos do cineasta Pasolini. Exigem mais escolas perto deles. Escolas inacessíveis a quem precisa de uma linguagem para poder se contar.
Italiano brasileiríssimo, o autor de "Um Grito Parado no Ar", Gianfrancesco Guarnieri, declarou que "ter de modificar a própria maneira de falar pode ser bom, no sentido em que a modificação traz a conquista de novos instrumentos".
Gianfrancesco vinha de um país que, acabado o fascismo, resolveu o problema de forma direta: escolas boas para todos, indiscriminadamente. Em duas gerações, acabou a violência. Mas aqui fingimos pensar o grande, o social e o econômico. E se continua como antes, na deseducação e no falso sonho de liberdade.
Esse tiro parado no ar de que o nosso Bortolotto infelizmente é protagonista precisa ser extraído de nossas cidades. Se tivermos, como classe, assumido a responsabilidade de artistas, indo além dos interesses ideológicos, vamos dar condições "gramáticas" de resposta a quem não tem. Isso quer dizer fazer estudar quem realmente pode puxar um gatilho.
Resposta
Se quisermos dar uma resposta civilizada e de classe a esse absurdo, esta só poderá ser histórica e de longo prazo; formar mais artistas e dramaturgos -os próprios protagonistas daquela triste madrugada, os que ensinarão, os que estudarão na praça- para contar o que não se consegue contar agora.
Não se trata do lugar-comum "a vida imita a arte", porque isso é material de literatura, de teatro, de música e de arte.Há meses venho dizendo que ali se trava uma batalha social, política e humana. Há vozes de heroísmo e de demagogia. Quem banca tal espetáculo, tal escola, e por aí vai, como fofocas numa luta de miseráveis. Isso tem de mudar. Somente reflexão, inteligência e disciplina poderão salvar tudo. E quando escrevo "tudo" escrevo "centro". Neste momento somos símbolo e centro de um drama que pode modificar o seu final.
A nós agora cabe decifrar como contar e com qual gramática podemos lutar para que as coisas melhorem. E isso é possível. Por enquanto, envio força vital ao Bortolotto.
Artigo de Mauricio Paroni para a Folha de São Paulo
O diretor Fernando Peixoto descreve a estrutura de "Um Grito Parado no Ar", de Gianfrancesco Guarnieri, no teatro Aliança Francesa, em 1973: "Um diretor e cinco atores procuram realizar um trabalho, enfrentando toda sorte de pressões externas; [...] noutro plano estão os poucos momentos em que o diretor e atores conseguem vencer; o espectador assiste ao processo de criação do ator. A mística do teatro é desnudada. [...] No terceiro plano estão as entrevistas com o povo, todas autênticas, gravadas nas ruas de São Paulo. Na peça dentro da peça seriam entrevistas realizadas para servirem de material de estudo para a criação de suas personagens".
Trinta e oito (38!) anos depois, na mesma cidade onde a população (rica e pobre) passou a ter a mesma vida dos ratos, dentro de carros com insulfilm, de escritórios, nas fábricas, escrava de apartamentos cuidados por uma imensa população de escravos chamados de empregados, há uma praça onde passa a vigorar uma estranha proibição de ir e vir.
São os próprios moradores -que substituíram os travestis e prostitutas de um tempo- a chamar as autoridades, obrigadas a cumprir a lei -não importa se a lei vale ali e para os 99% dos lugares periféricos onde há tiroteios e chacinas.
Um dramaturgo que tem um blog chamado "Atire no Dramaturgo", dentro de um dos teatros da praça, reage a um assalto promovido por ladrões drogados e certos da impunidade. É baleado, espera-se não mortalmente. Não é Camus, não é Kafka, não é Buñuel, não é mais Guarnieri. O próprio dramaturgo não pode contar a condição absurda dessas circunstâncias. Porque de testemunha de seu tempo virou vítima da realidade factual. Esse é o drama: nenhum de nós consegue contar a tragédia, porque não há público que possa entender tal lógica. Quem é o promotor dela?Quem financia aquela bala?
Escola
Na praça emblemática do drama com uma bala parada no ar, vai se instalar uma escola de teatro onde se ensinará o grito. Não é uma escola qualquer; é dirigida aos que não podem estudar, aos únicos que entendem a lógica de contar histórias nas quais vivem. Gente que está fadada a viver como aquele assaltante que "atirou no dramaturgo". Mas se revolta, indignada, a classe imbecil que ideologiza a nossa cidade, os "libertários" que inventam e habitam apartamentos de muitos cômodos, banheiros e três garagens em 60 m2. Aquela gentalha aparentemente decente tão bem criticada nos filmes e escritos do cineasta Pasolini. Exigem mais escolas perto deles. Escolas inacessíveis a quem precisa de uma linguagem para poder se contar.
Italiano brasileiríssimo, o autor de "Um Grito Parado no Ar", Gianfrancesco Guarnieri, declarou que "ter de modificar a própria maneira de falar pode ser bom, no sentido em que a modificação traz a conquista de novos instrumentos".
Gianfrancesco vinha de um país que, acabado o fascismo, resolveu o problema de forma direta: escolas boas para todos, indiscriminadamente. Em duas gerações, acabou a violência. Mas aqui fingimos pensar o grande, o social e o econômico. E se continua como antes, na deseducação e no falso sonho de liberdade.
Esse tiro parado no ar de que o nosso Bortolotto infelizmente é protagonista precisa ser extraído de nossas cidades. Se tivermos, como classe, assumido a responsabilidade de artistas, indo além dos interesses ideológicos, vamos dar condições "gramáticas" de resposta a quem não tem. Isso quer dizer fazer estudar quem realmente pode puxar um gatilho.
Resposta
Se quisermos dar uma resposta civilizada e de classe a esse absurdo, esta só poderá ser histórica e de longo prazo; formar mais artistas e dramaturgos -os próprios protagonistas daquela triste madrugada, os que ensinarão, os que estudarão na praça- para contar o que não se consegue contar agora.
Não se trata do lugar-comum "a vida imita a arte", porque isso é material de literatura, de teatro, de música e de arte.Há meses venho dizendo que ali se trava uma batalha social, política e humana. Há vozes de heroísmo e de demagogia. Quem banca tal espetáculo, tal escola, e por aí vai, como fofocas numa luta de miseráveis. Isso tem de mudar. Somente reflexão, inteligência e disciplina poderão salvar tudo. E quando escrevo "tudo" escrevo "centro". Neste momento somos símbolo e centro de um drama que pode modificar o seu final.
A nós agora cabe decifrar como contar e com qual gramática podemos lutar para que as coisas melhorem. E isso é possível. Por enquanto, envio força vital ao Bortolotto.
6 de outubro de 2009
Mauricio Paroni, nos tempos de escola, dirigido por Heiner Muller
Vídeo com Mauricio Paroni sendo dirigido por Heiner Muller na Scuola Paolo Grassi.
Algo histórico > aqui.
Beijos e abraços a todos
Algo histórico > aqui.
Beijos e abraços a todos
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1 de outubro de 2009
Re-estreia do Auto da Defunta Nua
Oi pessoal, boa noite
O Atelier estará re-estreando a peça sucesso de público "O Auto Da Defunta Nua", com Janine Correa e participação em vídeo de Sérgio Sant'Anna.
Baseada na peça de Pirandello "Vestir os Nus".
O horario da peça é 23:59, sextas e sábados no teatro dos Satyros I.
Esperamos vocês lá 1
Beijos e abraços !
Ah ! É curta temporada
O Atelier estará re-estreando a peça sucesso de público "O Auto Da Defunta Nua", com Janine Correa e participação em vídeo de Sérgio Sant'Anna.
Baseada na peça de Pirandello "Vestir os Nus".
O horario da peça é 23:59, sextas e sábados no teatro dos Satyros I.
Esperamos vocês lá 1
Beijos e abraços !
Ah ! É curta temporada
30 de setembro de 2009
11 de setembro de 2009
Só para dar vontade
Oi pessoal, segue um link de vídeo feito pelo Renato Rosatti, com trechos do "Com quem fica o coração" em cartaz no Satyros I.
Saboreiem !
beijos e abraços
http://www.youtube.com/watch?v=TRsaTvE3r04
Saboreiem !
beijos e abraços
http://www.youtube.com/watch?v=TRsaTvE3r04
21 de agosto de 2009
“Com Quem Fica o Coração?”

“Com Quem Fica o Coração?”
Com quem fica o coração?
Um espetáculo de Grand Guignol com um prólogo de necromagia ministrado pelo doutor Tezla Memnon
Com Carlos Meceni, Janine Corrêa e Josué Torres
Participação especial de Leonardo Silvério (necromagia), Leandra Demarchi (vídeo)
Composição cênica e dramaturgia do Atelier de Manufactura Suspeita, coordenadas por Mauricio Paroni de Castro e Elisa Band
Vídeo de Renato Rosati, livremente inspirado em Heiner Muller traduzido por Marcos Renaux
Figurinos de Adriana Ramos
Assistente de direção Leandra Demarchi
Produção Atelier do Manufactura Suspeita.
Apoio Os Satyros
Agradecimentos
Sylvia Soares, Beto Brant, Célio Amino, Claudia Marques, Hilton de Souza Ribeiro, José Carlos de Campos Sobrinho (Zeca), Laura Trevisan, Luís Francisco de Carvalho Filho, Otávio Azevedo, Sandro Vianello, Teatro Promíscuo, Ziza Brisola
Serviço:
ESPAÇO DOS SATYROS 1
Praça Roosevelt, 214
Telefone 3258 6345
Sextas e Sábados às 23:59 - de 14 de Agosto a 26 de Setembro
Preços r$ 10e r$20
Duração: 60 minutos
9 de agosto de 2009
balada na sexta
A balada da sapataria
Música de Slatko Makta
Letra de Shirley Banda e Breno De Paronis
Eu era uma uma demonia,
eu queria ser santa,
eu trabalhava com doação de órgãos ,
eu tocava orgão na igreja,
eu era assistente do pastor.
Eu trabalhava como acompanhante,
eu cortava, eu montava e fazia fuxico,
eu fazia massagem,
eu dava emprego pra médico-legista,
dava pra maquiador funerário,
dava pra proctologista,
dava pra policial fardado,
dava pra tarado à paisana.
Eu era caixa da sapataria.
Eu dava pro moçio do estoque.
Eu dava pra dona da loja
Pra corregedoria da polícia, eu virei perícia.
Pra vocês, hoje, eu sou atriz, por hobby.
Só por hoje.
Música de Slatko Makta
Letra de Shirley Banda e Breno De Paronis
Eu era uma uma demonia,
eu queria ser santa,
eu trabalhava com doação de órgãos ,
eu tocava orgão na igreja,
eu era assistente do pastor.
Eu trabalhava como acompanhante,
eu cortava, eu montava e fazia fuxico,
eu fazia massagem,
eu dava emprego pra médico-legista,
dava pra maquiador funerário,
dava pra proctologista,
dava pra policial fardado,
dava pra tarado à paisana.
Eu era caixa da sapataria.
Eu dava pro moçio do estoque.
Eu dava pra dona da loja
Pra corregedoria da polícia, eu virei perícia.
Pra vocês, hoje, eu sou atriz, por hobby.
Só por hoje.
30 de julho de 2009
COM QUEM FICA O CORAÇÃO? necromagia


“Com Quem Fica o Coração?” reaproxima o Atelier Manufactura Suspeita do gênero Grand Guignol. A trama narra as vicissitudes de um casal de fundamentalistas em que a mulher, homossexual latente e reprimida, surpreendida em adultério, é assassinada pelo marido. Este pretende vender os seus órgãos para doar o dinheiro auferido à seita a que pertencem. Serve-se para isso de um cirurgião ateu e degenerado por anos de prazer assassino associado ao lucro. O final não se conta: suspense é lei nesse gênero.
“Necromagia” é uma canja do próximo espetáculo executada no início da récita pelo Dr. Tezla Memnon (o ilusionista Leonardo Silvério), que ressuscitará a alma de políticos mortos. Necromagia é um filão pervertido do ilusionismo de barraca circense que remonta à tradição do teatro de revista dos anos vinte e apresenta situações bizarramente místicas.
O gênero grand guignol
Guignol era um fantoche criado em Lyon no final do século dezoito. Em pouco tempo, a popularidade alcançada o transformou em sinônimo de teatro de bonecos. Grand Guignol foi o nome escolhido por Max Maurey para batizar o Théatre Sallon de Paris, no ano do fechamento definitivo do Théatre Libre de André Antoine, em 1899. O lugar era a oficina de experimentação de Oscar Métenier, seu colega no Théatre Libre, que defendia a abolição dos limites impostos pelas convenções cênicas, na busca de maior autenticidade da ficção.
Essa era a principal premissa de uma concepção do espaço teatral originada da reorganização hiperrealista das cenas, até hoje difícil de ser conseguida. O atores eram desvinculados da imposição de postar-se “ teatralmente” e agiam como se estivessem totalmente mergulhados na realidade. “Estar em cena” era o mesmo que estar em um quarto, numa sala ou em uma rua. Não mais em uma cenografia que “representava” tais lugares. Paralelamente às inovações estruturadas da recém-inventada direção, os próprios conteúdos das representações progrediam, influenciados pela poética do teatro realista.
As audazes experiências do Théatre Libre de Antoine começaram a ser metabolizadas – ainda que não compreendidas- por um público burguês fascinado com os temas de horror e sexo propostos pelo Guignol. Ali Métenier vai além: explora emoções suscitadas nos expectadores por situações escabrosas de dramas realistas , exageradas ao extremo. Surge a dramaturgia do Grand Guignol como nos chegou até hoje.
Involuntariamente, Métenier havia criado um gênero, que nasceu dentro da poética realista. Situações dramáticas eram levadas a extremas conseqüências, sempre pontuadas por degeneração moral. Depois desta fase inicial passou-se a empregar elementos na insígnia da loucura, de fenômenos espíritas, de experiências paranormais. Eram dramas cruéis e violentos onde se disseminavam depravações, torturas e delitos com predileção pelo horror e pela morbidez. A última fase utilizou temas sádico-eróticos. Com o horror da guerra e do Holocausto, o gênero perdeu boa parte de sua eficácia.
Essa matéria, que se pode resumir como evocação de lendas urbanas em forma de espetáculo, assim como a nossa criação de necromagia revive o clima pré-expressionista do início do século XX. Trabalhamos neste seguindo os ditames de Tadeusz Kantor que nos repetia sempre: “a dimensão da vida está muito próxima da dimensão da arte; ambos confundem-se e compenetram-se, dividem um destino comum. A quarta parede não tem sentido porque a necessidade comunicativa da obra teatral reside nela própria; o espetáculo não acontece para alguém, mas na presença de alguém. Atores não podem fingir um personagem nem representar um texto; devem, eles mesmos agirem com um texto. O drama-vida coincide com a criação do espetáculo-obra de arte.”
Maurício Paroni de Castro
Próxima parada GRAND GUIGNOL

GRAMSCI e o Grand Guignol
Na Itália, o gênero foi introduzido em 1909 por Alfredo Sainati, ator que fundou uma companhia de Grand Guignol que alcançou grande sucesso e foi muito ativa até o seu fim, em 1928.
Numa de suas crônicas teatrais no jornal Avanti, em 1916-20, Antonio Gramsci estigmatizou a deriva decadente do Grand Guignol, e criticava as experimentações de Sainati:
"Por que o publico se diverte no Grand Guignol, se a própria natureza humana foge da dor e do sofrimento? Qual a causa disso ser motivo de atração no teatro? Não podemos falar de fruição artística no que diz respeito à criação de fantasmas poéticos exprimidos plasticamente pelo drama. É evidente que a razão da fortuna desse tipo de teatro deve-se inteiramente aos atores[...]. De tragicidade não há nada, além da máscara exterior e do espasmo físico que se tenta comunicar ao espectador, entorpecido com um tremor irresistível.[...] A matéria bruta, qual betume de noticia marrom, organiza-se na elasticidade da personalidade artística [do ator que a interpreta], que sabe comportar-se no modo mais atroz e mais sanguinariamente sugestivo. Assim, o espectador, que vai ao teatro para acanalhar-se e sentir uma tensão nervosa que lhe dê a impressão da vida fictícia do cortiço, fica satisfeito e aplaude".
3 de junho de 2009
Antonio Gramsci - da prisão do além-túmulo - colabora com Manufactura Suspeita
Não é o Paroni que inventa moda


“Sabe que eu, bem antes de Adriano Tilgher, descobri e contribuí a popularizar o teatro de Pirandello? Escrevi sobre Pirandello, de 1915 a 1920, tanto a ponto de juntar um volumezinho de 200 paginas. As minhas afirmações eram originais e sem exemplos, então: Pirandello era suportado amavelmente ou derriso abertamente.” (Escrito da prisão para a cunhada Tatiana, em 19 de março de 1927)
Antonio Gramsci (1891-1937), grande cientista político comunista e antifascista italiano, foi também critico teatral do “Avanti!” de Turim por quatro anos, de 1916 a 1920. Abaixo, um trecho significativo de uma das criticas sobre Pirandello - exatamente como o Manufactura trabalha seus textos:
[...] a personalidade artística de Pirandello é multifacetada e complexa. Quando Pirandello escreve um drama, ele não se exprime “literariamente” com a palavra, [esta] um aspecto [somente] parcial de sua personalidade artística. Ele “deve” integrar a escrita literária com a sua obra de capocomico e diretor. O drama de Pirandello atinge toda a sua expressividade somente quando a “atuação” será dirigida pelo Pirandello capocomico, ou seja, na medida em que Pirandello terá suscitado nos atores uma determinada expressão teatral e na medida em que o Pirandello diretor terá criado uma determinada relação estética entre o complexo humano que atuará e o aparato material do palco (luzes, cores, direção em sentido amplo). Ou seja, o teatro pirandelliano está estritamente ligado à personalidade física do escritor e não somente aos valores artístico-literários “escritos”. Uma vez morto Pirandello (quer dizer, se além do escritor, não mais opera o capocomico ou o diretor), o que sobra do teatro de Pirandello? “um canovaccio genérico” que, em certo sentido, pode lembrar o fundo de cena do teatro pré-goldoniano, dos “pretextos” teatrais, não da “poesia” eterna. Dir-se-ia que isso ocorre em todas as obras para teatro, o que, em certo sentid,o é verdade. Mas somente em certo sentido. È verdade que uma tragédia de Shakespeare pode ter diversas interpretações teatrais segundo os capocomicos e os diretores; quer dizer, é verdade que cada tragédia pode virar “pretexto” para espetáculos teatrais diferentes entre si. Mas resta que a tragédia “impressa” no papel e lida individualmente tem uma vida artística independente, que pode se abster da representação teatral: é poesia e arte também fora do teatro e do espetáculo. Isso não acontece com Pirandello: o seu teatro vive esteticamente em sua maior substância somente se “representado” teatralmente tendo Pirandello como capocomico ou diretor. (tudo isso seja entendido com muito cuidado).
Antonio Gramsci – Cadernos do Cárcere – Literatura e Vida Nacional – Ed Riunti, Roma - tradução Mauricio Paroni de Castro


“Sabe que eu, bem antes de Adriano Tilgher, descobri e contribuí a popularizar o teatro de Pirandello? Escrevi sobre Pirandello, de 1915 a 1920, tanto a ponto de juntar um volumezinho de 200 paginas. As minhas afirmações eram originais e sem exemplos, então: Pirandello era suportado amavelmente ou derriso abertamente.” (Escrito da prisão para a cunhada Tatiana, em 19 de março de 1927)
Antonio Gramsci (1891-1937), grande cientista político comunista e antifascista italiano, foi também critico teatral do “Avanti!” de Turim por quatro anos, de 1916 a 1920. Abaixo, um trecho significativo de uma das criticas sobre Pirandello - exatamente como o Manufactura trabalha seus textos:
[...] a personalidade artística de Pirandello é multifacetada e complexa. Quando Pirandello escreve um drama, ele não se exprime “literariamente” com a palavra, [esta] um aspecto [somente] parcial de sua personalidade artística. Ele “deve” integrar a escrita literária com a sua obra de capocomico e diretor. O drama de Pirandello atinge toda a sua expressividade somente quando a “atuação” será dirigida pelo Pirandello capocomico, ou seja, na medida em que Pirandello terá suscitado nos atores uma determinada expressão teatral e na medida em que o Pirandello diretor terá criado uma determinada relação estética entre o complexo humano que atuará e o aparato material do palco (luzes, cores, direção em sentido amplo). Ou seja, o teatro pirandelliano está estritamente ligado à personalidade física do escritor e não somente aos valores artístico-literários “escritos”. Uma vez morto Pirandello (quer dizer, se além do escritor, não mais opera o capocomico ou o diretor), o que sobra do teatro de Pirandello? “um canovaccio genérico” que, em certo sentido, pode lembrar o fundo de cena do teatro pré-goldoniano, dos “pretextos” teatrais, não da “poesia” eterna. Dir-se-ia que isso ocorre em todas as obras para teatro, o que, em certo sentid,o é verdade. Mas somente em certo sentido. È verdade que uma tragédia de Shakespeare pode ter diversas interpretações teatrais segundo os capocomicos e os diretores; quer dizer, é verdade que cada tragédia pode virar “pretexto” para espetáculos teatrais diferentes entre si. Mas resta que a tragédia “impressa” no papel e lida individualmente tem uma vida artística independente, que pode se abster da representação teatral: é poesia e arte também fora do teatro e do espetáculo. Isso não acontece com Pirandello: o seu teatro vive esteticamente em sua maior substância somente se “representado” teatralmente tendo Pirandello como capocomico ou diretor. (tudo isso seja entendido com muito cuidado).
Antonio Gramsci – Cadernos do Cárcere – Literatura e Vida Nacional – Ed Riunti, Roma - tradução Mauricio Paroni de Castro
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