26 de janeiro de 2012

“Correnteza” estréia dia 2 de fevereiro de 2012, no SESC Consolação, Espaço Beta, às 21 horas. Temporada até 2 de março, Quintas e Sextas.


A Idéia Forte de Correnteza

O espetáculo foi construído sobre ensinamentos diretamente ouvidos de Tadeusz Kantor, Renata Molinari e Thierry Salmon. Ainda que bem guardadas as respectivas funções artesanais, o trabalho criativo não definiu limites entre a direção e a interpretação. A idéia forte foi criar um lugar mental num ambiente com palco, compreendidos fisicamente sua platéia e seu publico.
Cito os mestres e respectivas idéias:
• Tadeusz Kantor
Tive, por cerca de um mês, o imenso privilégio conviver com Kantor na Escola de Arte Dramática de Milão, onde ele ministrou as suas lições milanesas. Era julho de 1985. Cursava o primeiro ano da escola. Pude ouvir diretamente dele: “O espaço da vida é o espaço da arte; ambos confundem-se, compenetram-se e dividem um destino comum; A ‘quarta parede’ não tem sentido porque a necessidade da obra teatral reside nela própria; o espetáculo acontece não para alguém, mas na presença de alguém; atores não podem fingir uma personagem ou representar um texto; o drama e a vida coincidem na criação de um espetáculo-obra de arte.”
• Renata Molinari
Supervisionou a dramaturgia de alguns meus espetáculos na Itália e na Escócia. Vou direto ao ponto: “Não existe nada na vida [real] que não possa ser assumido dentro de um espetáculo; se você se move, não numa dimensão de naturalismo, mas de coerência orgânica no desenvolvimento de conseqüências da própria vida. O espaço, o objeto, as cores os sons, todos os elementos têm uma necessidade dramatúrgica precisa e ficam à disposição [de leitura e de percepção] do espectador desde o começo. (...) O espaço cênico para nos é um ponto de fuga, ou um território onde proponho nosso desafio como necessidade expressiva. Consideramos o espaço cênico como lugar artístico autônomo, lugar mental onde as coisas acontecem. Lugar que tem direito de existir quando somos obrigados a negá-lo: interrogamo-nos sobre a possibilidade ou não de sua própria existência, e, portanto, não o consideramos como um fato [real, mas de ficção]”.
• Thierry Salmon
Fui aluno e assistente por duas vezes desse genial diretor belga, morto num acidente de automóvel em 1998 muito jovem, e infelizmente quase desconhecido no Brasil: “Peço ao espectador para fazer um esforço; por exemplo, deixo buracos nas construções para que quem assista possa neles investir. [...] Prefiro eu o espectador trace um percurso no espetáculo, que dois espectadores não vejam a mesa coisa. O teatro é um lugar de resistência, um lugar que permite que se viva diferentemente.”

Seguindo as intuições acima transcritas, fizemos o ator recordar-se do texto no mesmo instante da representação (e coincidente com ela), o que contextualiza no presente a estória que conta. A esta estória se acavalam os contos do pai, do avô e do filho. Portanto, os versos de Gabriela Mellão são recordados e vividos ao mesmo tempo, enquanto verso (se fosse pintura, caberia mencionar: desenho) e enquanto emoção (ainda, se fosse pintura, caberia mencionar: cor) diante do público, não necessariamente para o publico.
Há também uma comunicação que liga a nível pessoal o ator, o diretor e o autor, que se dirigem diretamente ao espectador. Nenhuma ingênua e apelativa interatividade. O nosso espectador é visita e intimamente criativa das visões totalizantes encabeçadas pelos versos de Gabriela. Esse nível de comunicação dita a extrema simplicidade da cena, além da interpretação hiper realista utilizada. Criamos uma forma que se assemelha aos tradicionais benshi do cinema mudo japonês. (O benshi - “homem que fala” - ficava ao lado da tela e sua narração era teatral. Freqüentemente interagia verbalmente com as personagens do filme narrado. Criada nas tradições Kabuki e Noh, essas narrações e comentários eram muito importantes na experiência de se assistir ao cinema mudo japonês.). Resta replicarmos quotidianamente, aqui e agora, um enredo transbordante de drama, vida, destinos, com um final que ecoa a alma das personagens na mesma alma de quem o assiste.

“Correnteza” estréia dia 2 de fevereiro de 2012, no SESC Consolação, Espaço Beta, às 21 horas. Temporada até 2 de março, Quintas e Sextas.

Mauricio Paroni de Castro

12 de dezembro de 2011

comentario sobre os microdramas de Paroni publicados na Ilustrissima de 11- 12 -11

A descrição da paixonite súbita da moça encantada com coisas nórdicas, em “Amor Fonético” é psicologicamente genial. É um átomo das forças e tendências que geram vínculos afetivos a partir de idiossincrasias arbitrárias, cuja variação absoluta deve ser infinita. Provavelmente limitada apenas pelos limites do que pode ser imaginado. Está claro a mim que qualquer coisa pode virar objeto de valor e apreciação. E, portanto, um guia para a prática e a conduta da vida. Milhões de bilhões de paixões e desgostos, contidos em milhões de bilhões de visões e formas de vida; não obstante feitos de matérias-primas comuns. Sendo o espectro de possibilidades assim tão amplo, é certo que são proporcionalmente amplos os motivos para desencadear a paixão e o amor, assim como seus inversos, e assim como também provavelmente outros sentimentos e formas de intersubjetividade.

Eu imagino alguém, um colecionador de selos postais, que se apaixone pela autora de uma carta cujo selo é aquela raridade especial. Ou um homem que se atraia por aquela mulher, precisamente ela, pela linha vertical separando seu lábio inferior em dois pólos protuberantes; coisa que outra meia-dúzia veria como um defeito e outros milhões sequer perceberiam. Preciosismos e idiossincrasias sutis, que retumbam aos olhos daquele predisposto para reconhecê-los – e assim, ao fazê-lo, efetivamente fazendo a peculiaridade, o fato simbólico, mental e afetivo, existir.

E assim cria-se o valor, não é mesmo. Uma infinita miríade de possibilidades se interpenetrando, de olhares cruzados, suspiros, frustrações e satisfações intensas, entrecortadas por fugacidades. É isso, precisamente, a humanidade.

Os contos são realmente preciosos para descrever todo esse mecanismo sutil, porém denso, que há nas e entre as pessoas. É psico e sociologia básica, aplicada, vislumbrável, palpável e, especialmente, apaixonante.F.


http://zeocit.wordpress.com/2011/12/11/alguns_contos/#comment-192

19 de novembro de 2011

Círculo Gatsby





O publico conversa com personagens do romance de Scott Fitzgerald, O Grande Gatsby

Com
Janine Correa (Empregada de Daisy), Thais Simi (Empregada da mulher do frentista e a voz de Nick Carraway), Simone Limase (Caça fortuna de festas) e Rodrigo Zappa (O frentista do posto de gasolina)

Texto de Mauricio Paroni de Castro

O romance "O Grande Gatsby” passa-se na mítica Long Island dos anos 1920, de mulheres lindas, álcool, jazz, elegância, glamour, na ilusória certeza de que a vida seria uma festa sem fim. Para aqueles que freqüentavam as festas. O dono da festa era o milionário Jay Gatsby, para quem a voz de Daisy era inesquecível porque "soava a dinheiro". O livro retrata a recusa da maturidade, a incapacidade de envelhecer e uma obstinação: a de continuarem todos jovens e ricos para sempre, parábola exemplar do sonho americano.
Circulo Gatsby conta a estória do outro lado da riqueza: o de seus empregados, que serviram as respectivas personagens antes do crime final. Em nosso espetáculo, a trama é reelaborada diante do publico.

Self-made man, Gatsby junta grande fortuna e se torna figura lendária de uma América próspera, das máquinas de Detroit e do cinema de Hollywood. Sua história de ascensão é narrada apela empregada de Nick Carraway, um convidado assíduo àquelas festas; Como Carraway logo descobriu a infelicidade íntima de seu "herói", como cultivou um antigo amor mal resolvido pela mulher de um milionário. Ele é assassinado por vingança, por um mecanico (contado por Rodrigo Zappa) que teve a mulher atropelada por Daisy a mulher que ele cortejava. A atmosfera de euforia e vazio que toma conta de O Grande Gatsby é constantemente reevocada pelos empregados dentro dos parques em que é contada como se fosse o dia seguinte da ultima festa que ele promoveu em seu suntuoso jardim. Uma abordagem popular e criativa de uma estória que fez tanto sucesso no cinema e foi o maior romance americano do século XX.

Confissões Públicas



“Confissões Públicas” é o resultado de uma pesquisa realizada ao ar livre com jovens atores que criou um espetáculo em forma de “aula” para um público popular. Partindo da reelaboração cênica de Nietzsche e outros autores considerados “difíceis”, desfaz o tabu da arte inacessível e do público ingênuo. Um resultado surpreendente, que levou o autor a investigar o uso teatral de espaços não convencionais. Através destas “Confissões” contribuimos para a formação de um público que normalmente não vai ao teatro, mas cuja consciência vá mais além do que o simples (mas não dispensável) prazer do espectador. Mauricio Paroni de Castro reescreveu alguns temas de autores que versam sobre temáticas antigas, geográfica e historicamente ligadas ao Mediterrâneo. São eles: Apuleio (cidadão Romano nascido na África no século II d.C.) e dois jovens dramaturgos contemporâneos com os quais trabalhou na Itália e no Brasil (Renato Gabrielli e Rodrigo Zappa). “Confissões Públicas” traz ao conhecimento do público temáticas comuns e não-ideológicas, banidas de nossa cultura desde (e pela) a ditadura militar. O emprego, contínuo em sua maioria, de jovens atores de talento ao lado de importantes será realçado nestas leituras pelas intervenções diaticas e acessibilissimas do diretor, que explica, de maneira acessível e agradável, métodos e procedimentos cênicos. Os temas dos textos são existenciais, são populares e são eivados de humanismo tocante, pois empregarão pessoas comuns no elenco, provenientes de um workshop organizado para esse fim. Os textos apresentados serão: uma redução da obra de Renato Gabrielli e Fernando Pessoa, “A Secretária”, de Michella Marelli, Confissão extraída de "Asno de Ouro", do latino Lucius Apuleius (século II d.C.), “Auto da Defunta Nua” e “A Carne dos Arrogantes”. Os artistas envolvidos são Mauricio Paroni de Castro (Autor e diretor), e os atores Janine Correa, Helena Magon, Rodrigo Zappa, Simone Limase, Thais Simi, Sylvia Soares, Pedro Barreiro (assistente), membros do Atelier de Manufactura Suspeita.

http://www.tumblr.com/blog/confissoespublicas

A BUZINA SUSPEITA





Apresenta CONFISSÕES AO VIVO DE PERSONAGENS PROVÁVEIS DA NOSSA CIDADE, NA CHOPPERIA PAULISTA, RUA AUGUSTA 2077, SEGUNDAS ÀS 19 HORAS. EM PROGRAMETES COMICOS E BREVES, COM OS ATORES DO ATELIER DE MANUFACTURA SUSPEITA.

24 de outubro de 2011

CONFISSOES PUBLICAS é um sucesso popular de alto nivel artistico

Dramaturgia elaborada por Mauricio Paroni de Castro nos dias 19 e 26 de julho 2011



O CEU Butantã e o Projeto Casulo apresentaram nos dias 19 e 26 de julho respectivamente às 20h as mini-encenaçoes dos estudos para “Confissões Públicas”, de Mauricio Paroni de Castro, que faz parte do 4º Ciclo de Textos Teatrais, que apresenta gratuitamente produções de autores renomados e novos talentos da dramaturgia em espaços públicos da região. “Confissões Públicas” é resultado de uma pesquisa do grupo teatral chamado Manufactura Suspeita, que através de resultados pesquisas artísticas conseguidas com jovens atores na apresentação do espetáculo realizado ao ar livre, para um público popular, utilizando textos de Nietzsche, Muller e outros autores considerados “difíceis” que desfez o tabu da arte inacessível ou do público ingênuo. Um resultado tão surpreendente que levou o autor a investigar o uso teatral de alguns espaços nao convencionais. Através destas “Confissões” queremos contribuir para a formação de um público que normalmente não vai ao teatro, cuja consciência vá mais além do que o simples (mas não dispensável) prazer do espectador. Mauricio Paroni de Castro reescreveu alguns textos que versam sobre temáticas antigas, geográfica e historicamente ligadas ao Mediterrâneo: Apuleio (cidadão Romano nascido na África no século II d.C.), Shakespeare e dois jovens dramaturgos contemporâneos com os quais trabalhou na Itália e no Brasil (Renato Gabrielli e Rodrigo Zappa). “Confissões Públicas” traz ao conhecimento do público temáticas comuns e a-ideológicas, banidas de nossa cultura desde (e pela) a ditadura militar. O emprego, contínuo em sua maioria, de jovens atores de talento ao lado de importantes artistas internacionais será realçado nestas leituras pelas intervenções de Mauricio Paroni de Castro por si só justifica a importância da realização do projeto. Os temas dos textos são existenciais, são populares e são eievados de humanismo tocante, pois empregarão pessoas comuns no elenco, provenientes de um workshop organizado para esse fim. Até hoje trabalham em ritmo acelerado, com pelo menos duas estréias ao ano. Os textos apresentados serão: uma redução de Mauricio paroni de Castro, sobre a obra de Renato Gabrielli e Fernando Pessoa, “A Secretária”, de Michella Marelli, Confissão extraida de "Asno de Ouro", do latino Lucius Apuleius (século II d.C.), “Auto da Defunta Nua” e “A Carne dos Arrogantes”. Os artistas envolvidos são Mauricio Paroni de Castro (Autor e diretor), e os atores Janine Correa, Helena Magon, Rodrigo Zappa, Simone Limase, Thais Simi, Sylvia Soares,Pedro Barreiro (assistente), membros do Atelier de Manufactura Suspeita. O 4º Ciclo de Leituras Públicas de Textos Teatrais tem o apoio do Programa de Ação Cultural – Proac, da Secretaria Estadual de Cultura.

Mais informações podem ser obtidas:
blog: www.ciclodeleiturasteatrais.blogspot.com
e-mail: ciclodeleiturasteatrais@gmail.com.


Serviço:
“CONFISSÕES PÚBLICAS”.
Dia 19/07 - às 20h.
CEU Butantã - Av. Eng. Heitor Antônio Eiras Garcia, 1700. Tel.: 3732-4560.
Dia 26/07, às 20h.
Projeto Casulo - Rua Paulo Bourrol, 100 – Real Parque. Tel.: 3758-0506 .

Grátis

7 de setembro de 2011

ATELIER DE MANUFACTURA SUSPEITA reapresenta
PORNOGRAFIA BARATA,
grande sucesso de público – esteve mais de dois anos em cartaz. E’ uma comédia sobre da intimidade de encontros amorosos, prostituição e de trocas de casais. Não se trata, porém, de exibição pura e simples de sexo como o título parece evocar. A dramaturgia, encenada numa montagem hiperreal e libertina, evidencia a suavidade dos muitos contos de amor desde sempre truncadas pela repressão cotidiana ao sexo.
A comédia se passa na atmosfera surreal do Kitsch Club, que fica na Rua Vergueiro, 2676 – estação do metro Ana Rosa. Quem desejar, poderá esticar a noite na casa.

(...) "É pelo simulacro, pelo precário, que a montagem de Paroni se desarma de qualquer pretensão e conquista a cumplicidade do público." "(...) pelo riso que desmistifica a perversão, pela sofisticação de conceitos que se desenha por trás do precário, 'Pornografia Barata' constitui-se numa educação sentimental iconoclasta (...)."
Sérgio Salvia Coelho - Folha de São Paulo * * *

Ficha Técnica
Direção de Mauricio Paroni de Castro
Dramaturgia do diretor, a partir de Nietszche e Andrés Lima.
Com Janine Correa, Helena Magon, Simone Limase, Thais Simi, Marcelo Szyckman, Rodrigo Zappa, Pedro Barreiro, Mauricio Paroni, Célio Amino e atores do Atelier de Manufactura Suspeita
no Kitsch Club
R. Vergueiro, 2676 - Vila Mariana - São Paulo - SP
Tel: (11) 5083-1440
A partir de 30 de Setembro, todas as Sextas-feiras e Sábados às 22 h.
Duração: 60 minutos
Censura: 18 anos
Ingressos: R$40 e R$20

UM ARTIGO DE CONTARDO CALLIGARIS SOBRE O ESPETACULO


Sexo "artístico"
CONTARDO CALLIGARIS
Folha Ilustrada
No cinema, o sexo é um bailado de corpos que se exercitam, com luz e música apropriadas.
COM FREQÜÊNCIA (crescente?), o sexo, no cinema, consiste em cenas intermináveis nas quais fragmentos de corpos, enquadrados de maneira que não se sabe mais se são nádegas ou seios, movimentam-se numa luz suave e com uma trilha sonora que é uma espécie de Galvão Bueno da “transa” -só que mais previsível que o apresentador global.
Talvez se trate de um efeito da censura ou da autocensura: o disfarce “artístico” vale como pretexto para que a gente se autorize a mostrar coisas que, sem isso, pareceriam proibidas.
O fato é que, em geral, esse sexo “artístico” me causa um mal-estar.
De repente, passo a contemplar (no escuro) a ponta de meu sapato, como um adolescente que estivesse na companhia dos pais. Mas não é por pudor infantil: no cinema, uma cena de sexo que seja pornográfica ou simplesmente realista não me causa mal-estar algum, e, quer eu goste ou não, sigo olhando para a tela.
De onde vem, então, minha dificuldade com o sexo “artístico”?
Uma amiga gostava de um homem bonito e “sarado”. Quando se deitaram juntos pela primeira vez, havia um grande espelho ao lado da cama.
No meio das escaramuças, o homem olhava insistentemente para o espelho. Minha amiga pensou que ele devia achar excitante a visão dos dois corpos nos gestos do amor, mas logo ela notou que o homem não parava de flexionar seus tríceps verificando, no espelho, a definição de seus músculos. Minha amiga perdeu o entusiasmo; esperou, educadamente, que a transa acabasse e nunca mais encontrou o homem.
“O que foi?”, perguntei, “você ficou com ciúmes dos olhares apaixonados que ele reservava para seu próprio corpo?”. “Não”, respondeu minha amiga, “só fiquei com a sensação de que a gente estava na academia. E aí perdi o embalo”.
Pois bem, no cinema, as representações “artísticas” do sexo me fazem um efeito parecido: é como se o descontrole do corpo erótico (que, claro, concordo, pode ser obsceno) fosse substituído quer seja por um bailado de corpos higienistas que se exercitam, quer seja por uma câmara lenta de músculos e pele, que parece ambicionar o estatuto de obra de arte abstrata.
Em suma, no estereótipo cinematográfico, o sexo parece mais estético, saudável e pretensamente poético do que extático.
Ora, o sexo não é nada disso, e torná-lo “artístico” não é apenas um jeito de representá-lo, é também um jeito de domesticá-lo, de regrá-lo.
Talvez seja a única ocasião em que Foucault analisou diretamente o poder do Estado no mundo contemporâneo. Como sempre, Foucault é genial: ele aponta o ideal do Estado contemporâneo na “frugalidade” (ou seja, no menor governo possível), enquanto o exercício do poder é delegado a mecanismos que triunfam por seu caráter aparentemente natural e incontestável. Exemplo fundamental: o Mercado, que, sem intervenções externas, produziria os preços e os custos “verdadeiros” -só pelo livre jogo dos agentes econômicos. Em outras palavras, no exercício do poder moderno, não é preciso mandar: basta mostrar a “naturalidade” do óbvio.
O seminário termina antes que Foucault consiga tratar propriamente do poder na gestão da vida cotidiana, mas entende-se que ele funciona da mesma forma, graças a reguladores implícitos, que se impõem por sua suposta e “óbvia” naturalidade. Por exemplo, quem negará que a vida saudável, a harmonia e a higiênica limpeza são valores “naturalmente” benéficos?
Então por que seríamos reféns da “feiúra” da concupiscência, quando é possível (como sugerem as cenas artístico-eróticas do cinema) viver orgasmos lindos e simultâneos, quem sabe ritmados pelo coro da “Nona Sinfonia” de Beethoven?
Sem contar que, com luz e música certas, também parece óbvio que o sexo possa espontânea e naturalmente conviver com o amor. Não é?
P.S. A vantagem do teatro sobre o cinema é que, no teatro, a estetização sanitarista do sexo é mais difícil, pela presença física do corpo dos atores e pela falta de enquadramentos parciais. Como contraponto ao sexo “artístico”, freqüente no cinema, quem estiver em São Paulo ou passar por aqui pode assistir a uma peça: “Pornografia Barata”, de Mauricio Peroni de Castro.

30 de agosto de 2011

Principais técnicas criadas e empregadas pela companhia Manufactura Suspeita.






1. Círculo de ação: o ator como suporte da dramaturgia

Estabelecido um círculo que delimita o seu espaço de atuação, o ator coloca-se ao centro. Prepara-se em silêncio. A seguir, responde obrigatoriamente a um questionário, por parte de um público ou de seus colegas. Este é

a. dirigido à pessoa do ator.
b. dirigido à idéia que ele tem da personagem.
c. dirigido à idéia com que o autor criou a personagem.

Evidenciam-se imediatamente pudores pessoais; estabelece-se um conflito entre a personalidade do ator e a idéia de personagem feitas por ele e pelo autor, no momento em que a improvisação, guiada passo a passo pelo diretor, requer dele – ou da “personagem” – uma ação.
No decorrer dos ensaios, os pudores volatizam-se ou são reprimidos. Mas o que interessa, os conflitos e contradições, são diariamente esmiuçados através de discussões entre os atores, o diretor e o dramaturgista. Através desse exaustivo processo de análise, os limites e as distâncias entre ator e personagem são estabelecidos de forma precisa. Essa precisão absoluta permite a imensa liberdade que é a criação cênica feita no limite entre a representação e a não-representação. Isso distingue os espetáculos do Manufactura Suspeita. A finalização das cenas será domínio exclusivo do dramaturgista, visto que escreveu a trama. Quem cria o suporte pessoal da obra são os atores. Quem estabelece os limites entre a obra e a vida real é o diretor. Mas a forma e o resultado final da obra são ditados pelo respeito absoluto ao resultado do processo conjunto desencadeado.

Ao transformarmos o ator em suporte de uma dramaturgia, conferimos-lhe uma responsabilidade que o transforma em criador, em autor pessoal de um texto feito de palavras, de gestos, de sons, de ritmo. O seu substrato pessoal funde-se com o substrato do seu trabalho artístico que, ao transbordar do âmbito pessoal, possibilita-lhe uma amplitude criativa teatral praticamente infinita.

O dramaturgista e o diretor, por sua vez, dialogam com o suporte trazido pelo ator. Acabam por necessitar da assimilação desses novos elementos trazidos pelo ator para, juntos, elaborarem uma nova escrita do espetáculo.

2. A deriva : criação de uma cartografia emocional e teatral das cidades

Estabelecem-se regras precisas de percursos feitos a pé em lugares diferentes dos habituais, em uma trajetória que não se cristaliza. Estrutura e sintaxe cênica do texto decorado e dito durante a experiência do percurso são mantidas. Os atores são predispostos a responder a verdadeiros questionários, feitos por parte dos desconhecidos, com quem são forçados a topar e a pedir informações sobre trajetos.

Esta prática é um dos pontos fundamentais na fatura da trama, onde os atores são o suporte da dramaturgia, e não o contrário, como se costuma fazer tradicionalmente. Os ganhos de tal inversão são de vários níveis: conceitual, criativo, interpretativo.

O diretor faz a orquestração e a comunicação entre essas esferas práticas e conceituais, definindo parâmetros precisos para que se possa estar aberto às descobertas. Aqueles só são fornecidos, porém, se forem deliberadamente acordadas as condições para que elas aconteçam em torno do texto original. A epifania pode até vir por acaso; mas quando há intenção de achá-la, podemos reconhecê-la com facilidade, e ela não mais se perde.

Em nossa companhia, o exercício da deriva é muito importante porque combate a atitude geral do ator que atua para ele mesmo que está atuando. Além disso, o exercício em si é passível de ser visto como uma obra que gera reflexão e interesse por parte de quem vê, e interfere de modo decisivo na comunicação e na presença do ator que está em cena.

A origem de tudo isso nasceu de uma pesquisa sobre "Rua de mão única", de Walter Benjamin.


Em “Rua de mão única”, Benjamin praticamente enuncia que somos obrigados a nos localizarmos a todo instante, mesmo se desejarmos nos perder. Nem um porre nos tira da linha. Somos condicionados a seguir placas de trânsito, indicações de direção, semáforos. Por extensão, seguimos modismos, tendências estéticas, manias coletivas, turismo de massa. Viajamos milhares de quilômetros para posar diante de um cartão postal.
A coisa vem de longe. Quem quer que tenha visitado qualquer ruína de cidade romana com atenção, terá notado uma rua de norte a sul chamada “cardum“ e outra de leste a oeste chamada “decumanum”, com paralelas do mesmo nome. Ao conquistar e manter um império de dimensões continentais, os romanos faziam de tudo para localizar-se sempre. Seus atuais herdeiros, os norte-americanos, também têm essa mania. Se você visitou New York, mesmo desatento, notou que a cartografia urbanística é a mesma: um tabuleiro de xadrez.
Infelizmente perde-se muito com isso. A sensação de desorientar-se em Mahakesh, onde pode-se tranqüilamente fantasiar raptos, escravidão branca e coisas afins, ficou fora de moda. É bem mais comum um executivo de folga (de um dia) na Itália conhecer alguma lojinha globalizada em Veneza do que se perder naquela maravilha, e descobrir que o melhor dali não são os museus, canais ou gôndolas: são os bares atrás de portas de residências comuns. Oferecem uma infinidade de petiscos marinhos (“cicchetti”) inimitáveis, acompanhados de honestos vinhos brancos (“ombretta de vin”) e fofocas terríveis sobre a cidade. Enfim, perde-se muita cultura.
Vamos adiante. O ensaio de Benjamin sugeriu-me algo ainda maior: a existência, em qualquer cidade ( e nas pessoas de tais cidades), de uma cartografia emocional a ser descoberta, desenhada, atuada. É muito mais rico e emocionante lembrar-se da primeira tentativa parisiense de paquera (com óbvias conseqüências desastrosas) em algum bar medíocre do que reconstruir uma visita com excelente guia turístico à Torre Eiffel.

3. Leitura de mesa à italiana, segundo a técnica de Massimo Castri.

Mauricio Paroni de Castro
Em Aqui ninguém é inocente
Direitos reservados.

14 de julho de 2011

Manufactura Suspeita reafirma sua vocaçao criativa no CEU Butantã e no Projeto Casulo

Dramaturgia elaborada por Mauricio Paroni de Castro nos dias 19 e 26 de julho 2011

4º Ciclo de Leituras Públicas de Textos Teatrais

O CEU Butantã e o Projeto Casulo apresentam nos dias 19 e 26 de julho respectivamente às 20h a leitura semi-encenada do texto “Confissões Públicas”, de Mauricio Paroni de Castro, que faz parte do 4º Ciclo de Leituras Públicas de Textos Teatrais, que apresenta gratuitamente produções de autores renomados e novos talentos da dramaturgia em espaços públicos da região. “Confissões Públicas” é resultado de uma pesquisa do grupo teatral chamado Manufactura Suspeita, que através de resultados pesquisas artísticas conseguidas com jovens atores na apresentação do espetáculo realizado ao ar livre, para um público popular, utilizando textos de Nietzsche, Muller e outros autores considerados “difíceis” que desfez o tabu da arte inacessível ou do público ingênuo. Um resultado tão surpreendente que levou o autor a investigar o uso teatral de alguns espaços nao convencionais. Através destas “Confissões” queremos contribuir para a formação de um público que normalmente não vai ao teatro, cuja consciência vá mais além do que o simples (mas não dispensável) prazer do espectador. Mauricio Paroni de Castro reescreveu alguns textos que versam sobre temáticas antigas, geográfica e historicamente ligadas ao Mediterrâneo: Apuleio (cidadão Romano nascido na África no século II d.C.), Shakespeare e dois jovens dramaturgos contemporâneos com os quais trabalhou na Itália e no Brasil (Renato Gabrielli e Rodrigo Zappa). “Confissões Públicas” traz ao conhecimento do público temáticas comuns e a-ideológicas, banidas de nossa cultura desde (e pela) a ditadura militar. O emprego, contínuo em sua maioria, de jovens atores de talento ao lado de importantes artistas internacionais será realçado nestas leituras pelas intervenções de Mauricio Paroni de Castro por si só justifica a importância da realização do projeto. Os temas dos textos são existenciais, são populares e são eievados de humanismo tocante, pois empregarão pessoas comuns no elenco, provenientes de um workshop organizado para esse fim. Até hoje trabalham em ritmo acelerado, com pelo menos duas estréias ao ano. Os textos apresentados serão: uma redução de Mauricio paroni de Castro, sobre a obra de Renato Gabrielli e Fernando Pessoa, “A Secretária”, de Michella Marelli, Confissão extraida de "Asno de Ouro", do latino Lucius Apuleius (século II d.C.), “Auto da Defunta Nua” e “A Carne dos Arrogantes”. Os artistas envolvidos são Mauricio Paroni de Castro (Autor e diretor), e os atores Janine Correa, Helena Magon, Rodrigo Zappa, Simone Limase, Thais Simi, Sylvia Soares,Pedro Barreiro (assistente), membros do Atelier de Manufactura Suspeita. O 4º Ciclo de Leituras Públicas de Textos Teatrais tem o apoio do Programa de Ação Cultural – Proac, da Secretaria Estadual de Cultura.

Mais informações podem ser obtidas:
blog: www.ciclodeleiturasteatrais.blogspot.com
e-mail: ciclodeleiturasteatrais@gmail.com.


Serviço:
“CONFISSÕES PÚBLICAS”.
Dia 19/07 - às 20h.
CEU Butantã - Av. Eng. Heitor Antônio Eiras Garcia, 1700. Tel.: 3732-4560.
Dia 26/07, às 20h.
Projeto Casulo - Rua Paulo Bourrol, 100 – Real Parque. Tel.: 3758-0506.

Grátis

12 de novembro de 2010

ASSURBANIPAL MAGICLUB !!!! Apresentação dia 5 de fevereiro à meia-noite





Assurbanipal Magiclub começa ao apagarem-se totalmente as luzes numa casa onde - não necessariamente – pode haver troca de casais, ménage, masturbação, voyeurismo. Atores nus no fundo da área de representação vestem-se de públicas confissões de suas fantasias. Na escuridão, mergulha-se a imaginação no possível sexo no fundo da sala dos véus do Nefertitti Club – nada é cenográfico, tudo é mente – Não há interatividade. A tentação da liberdade nasce na mente e somente se pode concretiza-la através do uso do próprio corpo integrado a ela



Seguirá em cartaz às Segundas-feiras, de 7 Fevereiro a 28 Março, às 21 horas, no Espaço dos Satyros 1 (Praça Roosevelt, 214, tel. 3258 6345), ingressos R$ 30 e 15.

Cenas do swing paulistano e trechos de Ésquilo a Espinosa compõem os microdramas cômicos vividos pelos frequentadores de uma casa noturna. Narra-se a lógica dos encontros sensuais através das confissões publicas das personagens que, ao se autoiluminarem aleatoriamente, surpreendem as ações empreendidas pelos atores na penumbra do ambiente em que é representada a peça.

Os atores “concertam” os temas, os encaixam em suas biografias e produzem ficção. Essencialmente filologia cênica da commedia dell´arte, é quase um jazz: há um fraseado decorado e ensaiado para ser empregado somente um terço do repertório dramatúrgico. Isso faz um réplica ligeiramente diferente de outra. A esse universo junta-se um show de entretenimento real em que um Mago adivinhará o pensamento de certas personagens. A experiência radical alça a divertida e reflexiva humanidade do universo do swing para além do preconceito e dos clichês teatrais.

com
Érika Forlim
Helena Magon
Janine Corrêa
Júlia Abs
Mago Follini
Mario Chimanovich Blackwolf
Mauricio Paroni de Castro
Patrícia Aguille
Raissa Peniche
Rodrigo Zappa


Produção e realização Atelier de Manufactura Suspeita

Direção, composição cênica e dramaturgia Mauricio Paroni de Castro

Colaboraram Adriana Vaz Ramos, Célio Amino, Sara Gassal, Simonia Queiroz,Thais Simi, Otavio Azevedo – funções variáveis no decorrer das réplicas do espetáculo

Administração Sylvia Soares



No Espaço dos Sátyros 1
Todas as Segundas-feiras às 21 00
Duração 1 hora e quinze minutos.
Ingressos R$ 30,00 e R$ 15,00 (Estudantes, Classe Artística e Terceira Idade); R$ 5,00 (Oficineiros dos Satyros e moradores da Praça Roosevelt).

Telefone 3289 2358
Desaconselhável a menores de 18 anos

30 de outubro de 2010

FELIZES, DEPOIS DE FAZER MAIS UMA RÉPLICA DE ASSURBANÍPAL MAGICLUB


A companhia suspeitamente feliz, depois de mais uma réplica ASSURBANÍPAL MAGICLUB. Fazemos excelente teatro, e sempre terminaomos de trabalhar felizes - como se vê na foto. O atelier suspeito faz isso toda Segunda, é motivo de alegria para nós e nosso público oba. Construímos, aos pocos, um repertório; boas surpresas se avistam no horizonte futuro, sempre na nossa casa, que é o Satyros 1, graças ao apoio verdadeiro do Ivam e do Rodolfo.

31 de agosto de 2010

Ótima avaliação para um ótimo trabalho. Venham conferir.

CRÍTICA

"Com Quem Fica o Coração" configura criação antológica


Entre a comédia e a miséria humana, peça reflete maturidade de
Paroni de Castro

LUIZ FERNANDO RAMOS
CRÍTICO DA FOLHA

O teatro de feira como grande arte. "Com Quem Fica o Coração",
do Atelier de Manufactura Suspeita, tem a despretensão de
divertir com recursos do Grand Guignol, mas realiza um
inventivo diálogo com a cena contemporânea, pondo em tensão os
limites entre o real e a ilusão.
O Grand Guignol é um gênero popular na França, que nasce no
fim do século 19 em um pequeno teatro de Paris, como
radicalização do drama naturalista, ousando trazer ao palco as
figuras e o linguajar de prostitutas e de criminosos vulgares.
Ao longo do século 20, e até a década de 1960, aquele espaço
foi se tornando cada vez mais uma casa de horrores, aonde se
ia para ver sangue e cabeças rolarem.
A encenação criada por Maurício Paroni de Castro parte dessas
referências para extrapolar muito além dos efeitos especiais
verossimilhantes, característicos daquela tradição e herdados
e banalizados pelo cinema de terror hollywoodiano.
Prefere fabular, em registro aparentemente cômico, o grotesco
de uma sanguinária dissecação de cadáver.
Como parte essencial da proposta, destaca-se a precariedade
cênica e o tom casual dos atores. Ele se manifesta
principalmente no trabalho de Carlos Meceni, gloriosamente
retornando à cena com interpretação virtuosa.
Como o cirurgião corrupto que comercia órgãos, ele sustenta
toda a ação dramática com fala mansa e a sugestão incisiva de
uma contínua manipulação, invisível ao público, por meio de
bisturis e algodões sangrentos.
Ao seu lado, o assistente, com perturbações mentais típicas
dos personagens do Grand Guignol acometidos pela loucura.
Josué Torres compõe com precisão o moço influenciado por um
pastor evangélico e dividido entre as autópsias e a religião.
Terceiro elemento da trama, Janine Corrêa cumpre a difícil
tarefa de encarnar a alma da mulher morta que está sendo
dissecada. Ela está jogada na cena, de pé ao lado da mesa onde
seus ossos estão sendo serrados. Nessa situação pouco
confortável, a atriz se sustenta no implausível, desempenhando
convicta uma crente devassa.
Criação coletiva, tributária grandemente dos atores e de sua
capacidade de construir uma ficção potente com um mínimo de
recursos, o trabalho reflete também a maturidade de Paroni de
Castro como dramaturgo e encenador. Operando numa linha tênue
entre a comédia e a miséria humana, o Atelier de Manufactura
Suspeita concretiza uma criação antológica.

COM QUEM FICA O CORAÇÃO

QUANDO qui., às 21h30
ONDE teatro Ruth Escobar (r. dos Ingleses, 209, tel. 0/xx/11/
3289-2358)
QUANTO R$ 30
CLASSIFICAÇÃO não informada
AVALIAÇÃO ótimo

22 de agosto de 2010

Opiniao de Marcelo Coelho sobre Com Quem Fica o Coração, em cartaz no Ruth Escobar todas as quintas às 21:30

"Com Quem Fica o Coração"



Assisto à montagem de “Com Quem Fica o Coração”, espetáculo de grand-guignol dirigido por Maurício Paroni de Castro. Declaro meu interesse novamente: trata-se de grande amigo meu, que pôs em cena alguns contos de Voltaire de Souza no espetáculo “Aqui Ninguém é Inocente”, da sua companhia, a Manufactura Suspeita.
Entra-se no teatro Ruth Escobar, e os atores já estão em cena, no que parece ser uma sala de cirurgia clandestina. O médico (Carlos Meceni) realiza uma autópsia, atrás de uma bancada; o cadáver não se vê. A morta, sim: Janine Corrêa está de pé, vestida com a bata branca dos pacientes, e comenta um pouco sua própria condição. O ajudante do médico (Josué Torres) aparecerá mais tarde. Um rádio toca música e pregação evangélica.
Em primeiro lugar, o que chama atenção é a absoluta naturalidade na voz, na dicção de Carlos Meceni. É um operador entediado, falando barbaridades enquanto opera outras no corpo em morte cerebral. Seu cientificismo cínico irá contrastar, assim como seu vocabulário e sotaque, com o credo religioso, a linguagem e a mentalidade para lá de classe C do seu ajudante.
Aos poucos se estabelece, com precisão extrema de detalhes, a diferença social e psicológica entre os dois personagens. Escrever isso é escrever pouco: o ajudante evangélico simplesmente não pensa segundo as mesmas regras do médico; as objeções e comentários que este lhe faz são ignoradas, num fluxo de ideias, convicções e narrativas que funciona sozinho. O ajudante é detalhista em suas memórias do passado: cita marcas e modelos de caminhão, raças de porco e de zebu, atropela-se citando personagens e mais personagens de algum episódio que viveu, sem se dar conta das ironias e das críticas do médico. Este, por sua vez, despreza o interlocutor, aborrece-se, reclama dos próprios problemas, atende a um sinistro celular. Sua familiaridade com a morte e com o mal é levada como um papo de boteco, enquanto a credulidade do antagonista tem o aspecto delirante que não é apenas o de uma religião fundamentalista, mas o de uma mentalidade quase que mutilada pela experiência da pobreza e da deseducação.
Os detalhes chocantes da trama não podem ser contados, mas deve-se registrar a abundância de sangue espirrado e humor negro ao longo da peça. O entrecho, que poderia ser mais esclarecido num ponto ou outro –esta é uma das críticas que sempre endereço a Maurício Paroni—interessa menos, contudo, do que o conflito em cena. De um lado, o racionalismo pragmático do médico, com o qual nos identificamos (até notar o abismo de perversão a que conduz). De outro, a irracionalidade pura do evangélico, que parece mais inocente, e com a qual é impossível identificação imediata, e menos ainda depois de se notar o extremo de brutalidade de que é capaz. Racionalismo e irracionalidade se espelham de modo aterrador no texto –tornando a presença da morta, esta é outra crítica, um pouco sem função durante boa parte do espetáculo.
“Com Quem Fica o Coração” está em cartaz no Ruth Escobar, somente às quintas-feiras, às 21h30.
Escrito por Marcelo Coelho às 01h01

11 de agosto de 2010

com quem fica o coração VOLTA NO RUTH ESCOBAR NESTA QUINTA DIA 19 DE AGOSTO

Com quem Fica o Coração

Sucesso há quase um ano, “Com quem fica o coração?”, reaproxima o Atelier Manufactura Suspeita do Grand Guignol, gênero teatral onde os atores se desvinculam da imposição de postar-se “teatralmente” e agem como se estivessem (não estando) totalmente mergulhados na realidade. Situações dramáticas levadas ao extremo das consequências, sempre pontuadas pela degeneração moral dos costumes, com predileção pelo sangue, horror e pela morbidez. Fato e espetáculo tornam-se marca do projeto estético do Atelier de Manufactura Suspeita. Essencialmente filologia cênica da commedia dell´arte, é quase um jazz: há um fraseado decorado e ensaiado para ser empregado somente um terço do repertório dramatúrgico. Isso faz um réplica ligeiramente diferente de outra. O método dramatúrgico de Paroni é empregado desde seus espetáculos italianos até o outro espetáculo atualmente em cartaz, “Assurbanipal Magiclub” e é parte da construção de uma companhia de pesquisa e repertório que dá mostras de grande consistência artesanal.

SINOPSE
Famoso cirurgião mutilado promove tráfico de órgãos humanos. Seu
enfermeiro acabou de matar a esposa homossexual e adúltera; Ao
retirar-lhe os órgãos, o fantasma dela volta para contar a sua versão da
estória.

TEATRO RUTH ESCOBAR
RUA DOS INGLESE, 209 BELA VISTA tel 3289 23 58

Horário: Quintas-feiras. às 21;30
Duração: 60 minutos

Direção: Mauricio Paroni de Castro
Dramaturgia: Mauricio Paroni de Castro e Elisa Band
Vídeo/Projeção: Renato Rosati
Composição do cenário: Mauricio Paroni de Castro
Figurinos: Adriana Ramos
Produção: Sylvia Soares
Realização: Atelier de Manufactura Suspeita.