30 de agosto de 2011

Principais técnicas criadas e empregadas pela companhia Manufactura Suspeita.






1. Círculo de ação: o ator como suporte da dramaturgia

Estabelecido um círculo que delimita o seu espaço de atuação, o ator coloca-se ao centro. Prepara-se em silêncio. A seguir, responde obrigatoriamente a um questionário, por parte de um público ou de seus colegas. Este é

a. dirigido à pessoa do ator.
b. dirigido à idéia que ele tem da personagem.
c. dirigido à idéia com que o autor criou a personagem.

Evidenciam-se imediatamente pudores pessoais; estabelece-se um conflito entre a personalidade do ator e a idéia de personagem feitas por ele e pelo autor, no momento em que a improvisação, guiada passo a passo pelo diretor, requer dele – ou da “personagem” – uma ação.
No decorrer dos ensaios, os pudores volatizam-se ou são reprimidos. Mas o que interessa, os conflitos e contradições, são diariamente esmiuçados através de discussões entre os atores, o diretor e o dramaturgista. Através desse exaustivo processo de análise, os limites e as distâncias entre ator e personagem são estabelecidos de forma precisa. Essa precisão absoluta permite a imensa liberdade que é a criação cênica feita no limite entre a representação e a não-representação. Isso distingue os espetáculos do Manufactura Suspeita. A finalização das cenas será domínio exclusivo do dramaturgista, visto que escreveu a trama. Quem cria o suporte pessoal da obra são os atores. Quem estabelece os limites entre a obra e a vida real é o diretor. Mas a forma e o resultado final da obra são ditados pelo respeito absoluto ao resultado do processo conjunto desencadeado.

Ao transformarmos o ator em suporte de uma dramaturgia, conferimos-lhe uma responsabilidade que o transforma em criador, em autor pessoal de um texto feito de palavras, de gestos, de sons, de ritmo. O seu substrato pessoal funde-se com o substrato do seu trabalho artístico que, ao transbordar do âmbito pessoal, possibilita-lhe uma amplitude criativa teatral praticamente infinita.

O dramaturgista e o diretor, por sua vez, dialogam com o suporte trazido pelo ator. Acabam por necessitar da assimilação desses novos elementos trazidos pelo ator para, juntos, elaborarem uma nova escrita do espetáculo.

2. A deriva : criação de uma cartografia emocional e teatral das cidades

Estabelecem-se regras precisas de percursos feitos a pé em lugares diferentes dos habituais, em uma trajetória que não se cristaliza. Estrutura e sintaxe cênica do texto decorado e dito durante a experiência do percurso são mantidas. Os atores são predispostos a responder a verdadeiros questionários, feitos por parte dos desconhecidos, com quem são forçados a topar e a pedir informações sobre trajetos.

Esta prática é um dos pontos fundamentais na fatura da trama, onde os atores são o suporte da dramaturgia, e não o contrário, como se costuma fazer tradicionalmente. Os ganhos de tal inversão são de vários níveis: conceitual, criativo, interpretativo.

O diretor faz a orquestração e a comunicação entre essas esferas práticas e conceituais, definindo parâmetros precisos para que se possa estar aberto às descobertas. Aqueles só são fornecidos, porém, se forem deliberadamente acordadas as condições para que elas aconteçam em torno do texto original. A epifania pode até vir por acaso; mas quando há intenção de achá-la, podemos reconhecê-la com facilidade, e ela não mais se perde.

Em nossa companhia, o exercício da deriva é muito importante porque combate a atitude geral do ator que atua para ele mesmo que está atuando. Além disso, o exercício em si é passível de ser visto como uma obra que gera reflexão e interesse por parte de quem vê, e interfere de modo decisivo na comunicação e na presença do ator que está em cena.

A origem de tudo isso nasceu de uma pesquisa sobre "Rua de mão única", de Walter Benjamin.


Em “Rua de mão única”, Benjamin praticamente enuncia que somos obrigados a nos localizarmos a todo instante, mesmo se desejarmos nos perder. Nem um porre nos tira da linha. Somos condicionados a seguir placas de trânsito, indicações de direção, semáforos. Por extensão, seguimos modismos, tendências estéticas, manias coletivas, turismo de massa. Viajamos milhares de quilômetros para posar diante de um cartão postal.
A coisa vem de longe. Quem quer que tenha visitado qualquer ruína de cidade romana com atenção, terá notado uma rua de norte a sul chamada “cardum“ e outra de leste a oeste chamada “decumanum”, com paralelas do mesmo nome. Ao conquistar e manter um império de dimensões continentais, os romanos faziam de tudo para localizar-se sempre. Seus atuais herdeiros, os norte-americanos, também têm essa mania. Se você visitou New York, mesmo desatento, notou que a cartografia urbanística é a mesma: um tabuleiro de xadrez.
Infelizmente perde-se muito com isso. A sensação de desorientar-se em Mahakesh, onde pode-se tranqüilamente fantasiar raptos, escravidão branca e coisas afins, ficou fora de moda. É bem mais comum um executivo de folga (de um dia) na Itália conhecer alguma lojinha globalizada em Veneza do que se perder naquela maravilha, e descobrir que o melhor dali não são os museus, canais ou gôndolas: são os bares atrás de portas de residências comuns. Oferecem uma infinidade de petiscos marinhos (“cicchetti”) inimitáveis, acompanhados de honestos vinhos brancos (“ombretta de vin”) e fofocas terríveis sobre a cidade. Enfim, perde-se muita cultura.
Vamos adiante. O ensaio de Benjamin sugeriu-me algo ainda maior: a existência, em qualquer cidade ( e nas pessoas de tais cidades), de uma cartografia emocional a ser descoberta, desenhada, atuada. É muito mais rico e emocionante lembrar-se da primeira tentativa parisiense de paquera (com óbvias conseqüências desastrosas) em algum bar medíocre do que reconstruir uma visita com excelente guia turístico à Torre Eiffel.

3. Leitura de mesa à italiana, segundo a técnica de Massimo Castri.

Mauricio Paroni de Castro
Em Aqui ninguém é inocente
Direitos reservados.

14 de julho de 2011

Manufactura Suspeita reafirma sua vocaçao criativa no CEU Butantã e no Projeto Casulo

Dramaturgia elaborada por Mauricio Paroni de Castro nos dias 19 e 26 de julho 2011

4º Ciclo de Leituras Públicas de Textos Teatrais

O CEU Butantã e o Projeto Casulo apresentam nos dias 19 e 26 de julho respectivamente às 20h a leitura semi-encenada do texto “Confissões Públicas”, de Mauricio Paroni de Castro, que faz parte do 4º Ciclo de Leituras Públicas de Textos Teatrais, que apresenta gratuitamente produções de autores renomados e novos talentos da dramaturgia em espaços públicos da região. “Confissões Públicas” é resultado de uma pesquisa do grupo teatral chamado Manufactura Suspeita, que através de resultados pesquisas artísticas conseguidas com jovens atores na apresentação do espetáculo realizado ao ar livre, para um público popular, utilizando textos de Nietzsche, Muller e outros autores considerados “difíceis” que desfez o tabu da arte inacessível ou do público ingênuo. Um resultado tão surpreendente que levou o autor a investigar o uso teatral de alguns espaços nao convencionais. Através destas “Confissões” queremos contribuir para a formação de um público que normalmente não vai ao teatro, cuja consciência vá mais além do que o simples (mas não dispensável) prazer do espectador. Mauricio Paroni de Castro reescreveu alguns textos que versam sobre temáticas antigas, geográfica e historicamente ligadas ao Mediterrâneo: Apuleio (cidadão Romano nascido na África no século II d.C.), Shakespeare e dois jovens dramaturgos contemporâneos com os quais trabalhou na Itália e no Brasil (Renato Gabrielli e Rodrigo Zappa). “Confissões Públicas” traz ao conhecimento do público temáticas comuns e a-ideológicas, banidas de nossa cultura desde (e pela) a ditadura militar. O emprego, contínuo em sua maioria, de jovens atores de talento ao lado de importantes artistas internacionais será realçado nestas leituras pelas intervenções de Mauricio Paroni de Castro por si só justifica a importância da realização do projeto. Os temas dos textos são existenciais, são populares e são eievados de humanismo tocante, pois empregarão pessoas comuns no elenco, provenientes de um workshop organizado para esse fim. Até hoje trabalham em ritmo acelerado, com pelo menos duas estréias ao ano. Os textos apresentados serão: uma redução de Mauricio paroni de Castro, sobre a obra de Renato Gabrielli e Fernando Pessoa, “A Secretária”, de Michella Marelli, Confissão extraida de "Asno de Ouro", do latino Lucius Apuleius (século II d.C.), “Auto da Defunta Nua” e “A Carne dos Arrogantes”. Os artistas envolvidos são Mauricio Paroni de Castro (Autor e diretor), e os atores Janine Correa, Helena Magon, Rodrigo Zappa, Simone Limase, Thais Simi, Sylvia Soares,Pedro Barreiro (assistente), membros do Atelier de Manufactura Suspeita. O 4º Ciclo de Leituras Públicas de Textos Teatrais tem o apoio do Programa de Ação Cultural – Proac, da Secretaria Estadual de Cultura.

Mais informações podem ser obtidas:
blog: www.ciclodeleiturasteatrais.blogspot.com
e-mail: ciclodeleiturasteatrais@gmail.com.


Serviço:
“CONFISSÕES PÚBLICAS”.
Dia 19/07 - às 20h.
CEU Butantã - Av. Eng. Heitor Antônio Eiras Garcia, 1700. Tel.: 3732-4560.
Dia 26/07, às 20h.
Projeto Casulo - Rua Paulo Bourrol, 100 – Real Parque. Tel.: 3758-0506.

Grátis

12 de novembro de 2010

ASSURBANIPAL MAGICLUB !!!! Apresentação dia 5 de fevereiro à meia-noite





Assurbanipal Magiclub começa ao apagarem-se totalmente as luzes numa casa onde - não necessariamente – pode haver troca de casais, ménage, masturbação, voyeurismo. Atores nus no fundo da área de representação vestem-se de públicas confissões de suas fantasias. Na escuridão, mergulha-se a imaginação no possível sexo no fundo da sala dos véus do Nefertitti Club – nada é cenográfico, tudo é mente – Não há interatividade. A tentação da liberdade nasce na mente e somente se pode concretiza-la através do uso do próprio corpo integrado a ela



Seguirá em cartaz às Segundas-feiras, de 7 Fevereiro a 28 Março, às 21 horas, no Espaço dos Satyros 1 (Praça Roosevelt, 214, tel. 3258 6345), ingressos R$ 30 e 15.

Cenas do swing paulistano e trechos de Ésquilo a Espinosa compõem os microdramas cômicos vividos pelos frequentadores de uma casa noturna. Narra-se a lógica dos encontros sensuais através das confissões publicas das personagens que, ao se autoiluminarem aleatoriamente, surpreendem as ações empreendidas pelos atores na penumbra do ambiente em que é representada a peça.

Os atores “concertam” os temas, os encaixam em suas biografias e produzem ficção. Essencialmente filologia cênica da commedia dell´arte, é quase um jazz: há um fraseado decorado e ensaiado para ser empregado somente um terço do repertório dramatúrgico. Isso faz um réplica ligeiramente diferente de outra. A esse universo junta-se um show de entretenimento real em que um Mago adivinhará o pensamento de certas personagens. A experiência radical alça a divertida e reflexiva humanidade do universo do swing para além do preconceito e dos clichês teatrais.

com
Érika Forlim
Helena Magon
Janine Corrêa
Júlia Abs
Mago Follini
Mario Chimanovich Blackwolf
Mauricio Paroni de Castro
Patrícia Aguille
Raissa Peniche
Rodrigo Zappa


Produção e realização Atelier de Manufactura Suspeita

Direção, composição cênica e dramaturgia Mauricio Paroni de Castro

Colaboraram Adriana Vaz Ramos, Célio Amino, Sara Gassal, Simonia Queiroz,Thais Simi, Otavio Azevedo – funções variáveis no decorrer das réplicas do espetáculo

Administração Sylvia Soares



No Espaço dos Sátyros 1
Todas as Segundas-feiras às 21 00
Duração 1 hora e quinze minutos.
Ingressos R$ 30,00 e R$ 15,00 (Estudantes, Classe Artística e Terceira Idade); R$ 5,00 (Oficineiros dos Satyros e moradores da Praça Roosevelt).

Telefone 3289 2358
Desaconselhável a menores de 18 anos

30 de outubro de 2010

FELIZES, DEPOIS DE FAZER MAIS UMA RÉPLICA DE ASSURBANÍPAL MAGICLUB


A companhia suspeitamente feliz, depois de mais uma réplica ASSURBANÍPAL MAGICLUB. Fazemos excelente teatro, e sempre terminaomos de trabalhar felizes - como se vê na foto. O atelier suspeito faz isso toda Segunda, é motivo de alegria para nós e nosso público oba. Construímos, aos pocos, um repertório; boas surpresas se avistam no horizonte futuro, sempre na nossa casa, que é o Satyros 1, graças ao apoio verdadeiro do Ivam e do Rodolfo.

31 de agosto de 2010

Ótima avaliação para um ótimo trabalho. Venham conferir.

CRÍTICA

"Com Quem Fica o Coração" configura criação antológica


Entre a comédia e a miséria humana, peça reflete maturidade de
Paroni de Castro

LUIZ FERNANDO RAMOS
CRÍTICO DA FOLHA

O teatro de feira como grande arte. "Com Quem Fica o Coração",
do Atelier de Manufactura Suspeita, tem a despretensão de
divertir com recursos do Grand Guignol, mas realiza um
inventivo diálogo com a cena contemporânea, pondo em tensão os
limites entre o real e a ilusão.
O Grand Guignol é um gênero popular na França, que nasce no
fim do século 19 em um pequeno teatro de Paris, como
radicalização do drama naturalista, ousando trazer ao palco as
figuras e o linguajar de prostitutas e de criminosos vulgares.
Ao longo do século 20, e até a década de 1960, aquele espaço
foi se tornando cada vez mais uma casa de horrores, aonde se
ia para ver sangue e cabeças rolarem.
A encenação criada por Maurício Paroni de Castro parte dessas
referências para extrapolar muito além dos efeitos especiais
verossimilhantes, característicos daquela tradição e herdados
e banalizados pelo cinema de terror hollywoodiano.
Prefere fabular, em registro aparentemente cômico, o grotesco
de uma sanguinária dissecação de cadáver.
Como parte essencial da proposta, destaca-se a precariedade
cênica e o tom casual dos atores. Ele se manifesta
principalmente no trabalho de Carlos Meceni, gloriosamente
retornando à cena com interpretação virtuosa.
Como o cirurgião corrupto que comercia órgãos, ele sustenta
toda a ação dramática com fala mansa e a sugestão incisiva de
uma contínua manipulação, invisível ao público, por meio de
bisturis e algodões sangrentos.
Ao seu lado, o assistente, com perturbações mentais típicas
dos personagens do Grand Guignol acometidos pela loucura.
Josué Torres compõe com precisão o moço influenciado por um
pastor evangélico e dividido entre as autópsias e a religião.
Terceiro elemento da trama, Janine Corrêa cumpre a difícil
tarefa de encarnar a alma da mulher morta que está sendo
dissecada. Ela está jogada na cena, de pé ao lado da mesa onde
seus ossos estão sendo serrados. Nessa situação pouco
confortável, a atriz se sustenta no implausível, desempenhando
convicta uma crente devassa.
Criação coletiva, tributária grandemente dos atores e de sua
capacidade de construir uma ficção potente com um mínimo de
recursos, o trabalho reflete também a maturidade de Paroni de
Castro como dramaturgo e encenador. Operando numa linha tênue
entre a comédia e a miséria humana, o Atelier de Manufactura
Suspeita concretiza uma criação antológica.

COM QUEM FICA O CORAÇÃO

QUANDO qui., às 21h30
ONDE teatro Ruth Escobar (r. dos Ingleses, 209, tel. 0/xx/11/
3289-2358)
QUANTO R$ 30
CLASSIFICAÇÃO não informada
AVALIAÇÃO ótimo

22 de agosto de 2010

Opiniao de Marcelo Coelho sobre Com Quem Fica o Coração, em cartaz no Ruth Escobar todas as quintas às 21:30

"Com Quem Fica o Coração"



Assisto à montagem de “Com Quem Fica o Coração”, espetáculo de grand-guignol dirigido por Maurício Paroni de Castro. Declaro meu interesse novamente: trata-se de grande amigo meu, que pôs em cena alguns contos de Voltaire de Souza no espetáculo “Aqui Ninguém é Inocente”, da sua companhia, a Manufactura Suspeita.
Entra-se no teatro Ruth Escobar, e os atores já estão em cena, no que parece ser uma sala de cirurgia clandestina. O médico (Carlos Meceni) realiza uma autópsia, atrás de uma bancada; o cadáver não se vê. A morta, sim: Janine Corrêa está de pé, vestida com a bata branca dos pacientes, e comenta um pouco sua própria condição. O ajudante do médico (Josué Torres) aparecerá mais tarde. Um rádio toca música e pregação evangélica.
Em primeiro lugar, o que chama atenção é a absoluta naturalidade na voz, na dicção de Carlos Meceni. É um operador entediado, falando barbaridades enquanto opera outras no corpo em morte cerebral. Seu cientificismo cínico irá contrastar, assim como seu vocabulário e sotaque, com o credo religioso, a linguagem e a mentalidade para lá de classe C do seu ajudante.
Aos poucos se estabelece, com precisão extrema de detalhes, a diferença social e psicológica entre os dois personagens. Escrever isso é escrever pouco: o ajudante evangélico simplesmente não pensa segundo as mesmas regras do médico; as objeções e comentários que este lhe faz são ignoradas, num fluxo de ideias, convicções e narrativas que funciona sozinho. O ajudante é detalhista em suas memórias do passado: cita marcas e modelos de caminhão, raças de porco e de zebu, atropela-se citando personagens e mais personagens de algum episódio que viveu, sem se dar conta das ironias e das críticas do médico. Este, por sua vez, despreza o interlocutor, aborrece-se, reclama dos próprios problemas, atende a um sinistro celular. Sua familiaridade com a morte e com o mal é levada como um papo de boteco, enquanto a credulidade do antagonista tem o aspecto delirante que não é apenas o de uma religião fundamentalista, mas o de uma mentalidade quase que mutilada pela experiência da pobreza e da deseducação.
Os detalhes chocantes da trama não podem ser contados, mas deve-se registrar a abundância de sangue espirrado e humor negro ao longo da peça. O entrecho, que poderia ser mais esclarecido num ponto ou outro –esta é uma das críticas que sempre endereço a Maurício Paroni—interessa menos, contudo, do que o conflito em cena. De um lado, o racionalismo pragmático do médico, com o qual nos identificamos (até notar o abismo de perversão a que conduz). De outro, a irracionalidade pura do evangélico, que parece mais inocente, e com a qual é impossível identificação imediata, e menos ainda depois de se notar o extremo de brutalidade de que é capaz. Racionalismo e irracionalidade se espelham de modo aterrador no texto –tornando a presença da morta, esta é outra crítica, um pouco sem função durante boa parte do espetáculo.
“Com Quem Fica o Coração” está em cartaz no Ruth Escobar, somente às quintas-feiras, às 21h30.
Escrito por Marcelo Coelho às 01h01

11 de agosto de 2010

com quem fica o coração VOLTA NO RUTH ESCOBAR NESTA QUINTA DIA 19 DE AGOSTO

Com quem Fica o Coração

Sucesso há quase um ano, “Com quem fica o coração?”, reaproxima o Atelier Manufactura Suspeita do Grand Guignol, gênero teatral onde os atores se desvinculam da imposição de postar-se “teatralmente” e agem como se estivessem (não estando) totalmente mergulhados na realidade. Situações dramáticas levadas ao extremo das consequências, sempre pontuadas pela degeneração moral dos costumes, com predileção pelo sangue, horror e pela morbidez. Fato e espetáculo tornam-se marca do projeto estético do Atelier de Manufactura Suspeita. Essencialmente filologia cênica da commedia dell´arte, é quase um jazz: há um fraseado decorado e ensaiado para ser empregado somente um terço do repertório dramatúrgico. Isso faz um réplica ligeiramente diferente de outra. O método dramatúrgico de Paroni é empregado desde seus espetáculos italianos até o outro espetáculo atualmente em cartaz, “Assurbanipal Magiclub” e é parte da construção de uma companhia de pesquisa e repertório que dá mostras de grande consistência artesanal.

SINOPSE
Famoso cirurgião mutilado promove tráfico de órgãos humanos. Seu
enfermeiro acabou de matar a esposa homossexual e adúltera; Ao
retirar-lhe os órgãos, o fantasma dela volta para contar a sua versão da
estória.

TEATRO RUTH ESCOBAR
RUA DOS INGLESE, 209 BELA VISTA tel 3289 23 58

Horário: Quintas-feiras. às 21;30
Duração: 60 minutos

Direção: Mauricio Paroni de Castro
Dramaturgia: Mauricio Paroni de Castro e Elisa Band
Vídeo/Projeção: Renato Rosati
Composição do cenário: Mauricio Paroni de Castro
Figurinos: Adriana Ramos
Produção: Sylvia Soares
Realização: Atelier de Manufactura Suspeita.

18 de janeiro de 2010

ASSURBANÍPAL MAGIC CLUB


SERÁ O PROXIMO ESPETÁCULO DO MANUFACTURA, COM TEXTO DO MAURICIO, VÍRGULAS, PONTOS E PONTOS-E-VÍRGULAS DE CAMUS,A. LIMA, FILOSOFOS GREGOS E VIDA VERDADEIRA... (Ilustração de Giampaolo Köhler)

9 de dezembro de 2009

Mário Bortolotto foi vítima de um tiro parado no ar

Baleado dentro do Espaço Parlapatões, na praça Roosevelt, no último sábado, dramaturgo passou de testemunha de seu tempo a vítima da realidade factual

Artigo de Mauricio Paroni para a Folha de São Paulo

O diretor Fernando Peixoto descreve a estrutura de "Um Grito Parado no Ar", de Gianfrancesco Guarnieri, no teatro Aliança Francesa, em 1973: "Um diretor e cinco atores procuram realizar um trabalho, enfrentando toda sorte de pressões externas; [...] noutro plano estão os poucos momentos em que o diretor e atores conseguem vencer; o espectador assiste ao processo de criação do ator. A mística do teatro é desnudada. [...] No terceiro plano estão as entrevistas com o povo, todas autênticas, gravadas nas ruas de São Paulo. Na peça dentro da peça seriam entrevistas realizadas para servirem de material de estudo para a criação de suas personagens".
Trinta e oito (38!) anos depois, na mesma cidade onde a população (rica e pobre) passou a ter a mesma vida dos ratos, dentro de carros com insulfilm, de escritórios, nas fábricas, escrava de apartamentos cuidados por uma imensa população de escravos chamados de empregados, há uma praça onde passa a vigorar uma estranha proibição de ir e vir.
São os próprios moradores -que substituíram os travestis e prostitutas de um tempo- a chamar as autoridades, obrigadas a cumprir a lei -não importa se a lei vale ali e para os 99% dos lugares periféricos onde há tiroteios e chacinas.

Um dramaturgo que tem um blog chamado "Atire no Dramaturgo", dentro de um dos teatros da praça, reage a um assalto promovido por ladrões drogados e certos da impunidade. É baleado, espera-se não mortalmente. Não é Camus, não é Kafka, não é Buñuel, não é mais Guarnieri. O próprio dramaturgo não pode contar a condição absurda dessas circunstâncias. Porque de testemunha de seu tempo virou vítima da realidade factual. Esse é o drama: nenhum de nós consegue contar a tragédia, porque não há público que possa entender tal lógica. Quem é o promotor dela?Quem financia aquela bala?

Escola

Na praça emblemática do drama com uma bala parada no ar, vai se instalar uma escola de teatro onde se ensinará o grito. Não é uma escola qualquer; é dirigida aos que não podem estudar, aos únicos que entendem a lógica de contar histórias nas quais vivem. Gente que está fadada a viver como aquele assaltante que "atirou no dramaturgo". Mas se revolta, indignada, a classe imbecil que ideologiza a nossa cidade, os "libertários" que inventam e habitam apartamentos de muitos cômodos, banheiros e três garagens em 60 m2. Aquela gentalha aparentemente decente tão bem criticada nos filmes e escritos do cineasta Pasolini. Exigem mais escolas perto deles. Escolas inacessíveis a quem precisa de uma linguagem para poder se contar.

Italiano brasileiríssimo, o autor de "Um Grito Parado no Ar", Gianfrancesco Guarnieri, declarou que "ter de modificar a própria maneira de falar pode ser bom, no sentido em que a modificação traz a conquista de novos instrumentos".

Gianfrancesco vinha de um país que, acabado o fascismo, resolveu o problema de forma direta: escolas boas para todos, indiscriminadamente. Em duas gerações, acabou a violência. Mas aqui fingimos pensar o grande, o social e o econômico. E se continua como antes, na deseducação e no falso sonho de liberdade.

Esse tiro parado no ar de que o nosso Bortolotto infelizmente é protagonista precisa ser extraído de nossas cidades. Se tivermos, como classe, assumido a responsabilidade de artistas, indo além dos interesses ideológicos, vamos dar condições "gramáticas" de resposta a quem não tem. Isso quer dizer fazer estudar quem realmente pode puxar um gatilho.

Resposta

Se quisermos dar uma resposta civilizada e de classe a esse absurdo, esta só poderá ser histórica e de longo prazo; formar mais artistas e dramaturgos -os próprios protagonistas daquela triste madrugada, os que ensinarão, os que estudarão na praça- para contar o que não se consegue contar agora.

Não se trata do lugar-comum "a vida imita a arte", porque isso é material de literatura, de teatro, de música e de arte.Há meses venho dizendo que ali se trava uma batalha social, política e humana. Há vozes de heroísmo e de demagogia. Quem banca tal espetáculo, tal escola, e por aí vai, como fofocas numa luta de miseráveis. Isso tem de mudar. Somente reflexão, inteligência e disciplina poderão salvar tudo. E quando escrevo "tudo" escrevo "centro". Neste momento somos símbolo e centro de um drama que pode modificar o seu final.

A nós agora cabe decifrar como contar e com qual gramática podemos lutar para que as coisas melhorem. E isso é possível. Por enquanto, envio força vital ao Bortolotto.



6 de outubro de 2009

Mauricio Paroni, nos tempos de escola, dirigido por Heiner Muller

Vídeo com Mauricio Paroni sendo dirigido por Heiner Muller na Scuola Paolo Grassi.
Algo histórico > aqui.

Beijos e abraços a todos

1 de outubro de 2009

Re-estreia do Auto da Defunta Nua

Oi pessoal, boa noite
O Atelier estará re-estreando a peça sucesso de público "O Auto Da Defunta Nua", com Janine Correa e participação em vídeo de Sérgio Sant'Anna.
Baseada na peça de Pirandello "Vestir os Nus".
O horario da peça é 23:59, sextas e sábados no teatro dos Satyros I.
Esperamos vocês lá 1
Beijos e abraços !

Ah ! É curta temporada

30 de setembro de 2009

11 de setembro de 2009

Só para dar vontade

Oi pessoal, segue um link de vídeo feito pelo Renato Rosatti, com trechos do "Com quem fica o coração" em cartaz no Satyros I.

Saboreiem !

beijos e abraços

http://www.youtube.com/watch?v=TRsaTvE3r04

21 de agosto de 2009

“Com Quem Fica o Coração?”




“Com Quem Fica o Coração?”

Com quem fica o coração?
Um espetáculo de Grand Guignol com um prólogo de necromagia ministrado pelo doutor Tezla Memnon
Com Carlos Meceni, Janine Corrêa e Josué Torres
Participação especial de Leonardo Silvério (necromagia), Leandra Demarchi (vídeo)
Composição cênica e dramaturgia do Atelier de Manufactura Suspeita, coordenadas por Mauricio Paroni de Castro e Elisa Band
Vídeo de Renato Rosati, livremente inspirado em Heiner Muller traduzido por Marcos Renaux
Figurinos de Adriana Ramos
Assistente de direção Leandra Demarchi
Produção Atelier do Manufactura Suspeita.
Apoio Os Satyros
Agradecimentos
Sylvia Soares, Beto Brant, Célio Amino, Claudia Marques, Hilton de Souza Ribeiro, José Carlos de Campos Sobrinho (Zeca), Laura Trevisan, Luís Francisco de Carvalho Filho, Otávio Azevedo, Sandro Vianello, Teatro Promíscuo, Ziza Brisola
Serviço:
ESPAÇO DOS SATYROS 1
Praça Roosevelt, 214
Telefone 3258 6345
Sextas e Sábados às 23:59 - de 14 de Agosto a 26 de Setembro
Preços r$ 10e r$20
Duração: 60 minutos

9 de agosto de 2009

balada na sexta

A balada da sapataria



Música de Slatko Makta

Letra de Shirley Banda e Breno De Paronis



Eu era uma uma demonia,

eu queria ser santa,

eu trabalhava com doação de órgãos ,

eu tocava orgão na igreja,

eu era assistente do pastor.



Eu trabalhava como acompanhante,

eu cortava, eu montava e fazia fuxico,

eu fazia massagem,

eu dava emprego pra médico-legista,

dava pra maquiador funerário,

dava pra proctologista,

dava pra policial fardado,

dava pra tarado à paisana.



Eu era caixa da sapataria.

Eu dava pro moçio do estoque.



Eu dava pra dona da loja



Pra corregedoria da polícia, eu virei perícia.

Pra vocês, hoje, eu sou atriz, por hobby.

Só por hoje.